Do Barro ao Axé: A História Desconhecida da Fundação de BH nas Raízes do Ponto de Memória CENSG
Por Mestre Guiné
Quando se fala dos 128 anos de Belo Horizonte, a história oficial gosta de lembrar dos mapas de Aarão Reis, dos edifícios imponentes da Praça da Liberdade e do sonho republicano de uma capital planejada para a modernidade. Mas existe uma outra história — viva, pulsar, fincada no chão batido — que a memória oficial tentou apagar: a história de quem pegou na enxada, na colher de pedreiro e ergueu essa cidade com o próprio suor.
É nessa travessia de lutas e de fé que se entrelaça a trajetória do **Ponto de Memória CENSG (Centro E. Nossa Senhora das Graças)** e a fundação do **Bairro Santo André**.
A Picareta que Ergueu a Capital e a Mão que Foi Expulsa
Poucos registros escolares contam que, antes de ser o centro da capital, o território do perímetro urbano abrigava comunidades e moradias populares. Uma delas era a **Vila Barroquinha**, cravada dentro dos limites do que viria a ser a Avenida do Contorno.
Nela vivia o **Fundador da Casa do Pai Mateus**. Pedreiro de profissão, ele foi um dos milhares de trabalhadores negros e operários que ajudaram a assentar os tijolos, erguer as estruturas e abrir as avenidas da "Cidade de Minas".
Porém, o projeto de modernidade da elite da época não previa espaço para os próprios construtores da cidade dentro da linha da Contorno. Assim que as obras avançaram, veio o golpe da desapropriação e do higienismo urbanístico: a família do fundador foi sumariamente retirada de sua casa na Barroquinha e empurrada para fora dos limites "planejados".
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O Caminho da Resistência: Da Lagoinha ao Santo André
A primeira parada dessa travessia foi a **Lagoinha**, a porta de entrada da periferia nascente de Belo Horizonte. Ali, entre a poeira das margens da cidade, as famílias expulsas encontraram o primeiro abrigo e começaram a reorganizar suas redes de solidariedade.
Mas a pressão da expansão urbana continuava. A busca por um chão seguro fez com que, na década de 1920, o caminho se estendesse um pouco mais acima, alcançando a geografia dos morros vizinhos. Foi ali que a família se fixou e fincou estacas definitivas no **Bairro Santo André**.
Não se tratava apenas de erguer quatro paredes para morar. Naquele chão do Santo André, ergueu-se a **Casa do Pai Mateus** — transformando o território em um espaço sagrado de cura, acolhimento, preservação das tradições de matriz africana e resistência comunitária. O pedreiro que ajudou a construir a cidade física tornava-se, ali, o arquiteto e fundador de um território de fé e ancestralidade.
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O Terreiro como Guardião da Memória de Belo Horizonte
Hoje, no endereço da Rua Amarílis, o **Ponto de Memória CENSG** guarda essa rota de resistência. Se os arquivos do Estado guardam as plantas e os decretos da nova capital, é no terreiro e na comunidade do Santo André que está guardada a memória viva do povo.
Relembrar essa trajetória de **Vila Barroquinha $\rightarrow$ Lagoinha $\rightarrow$ Santo André** nos faz refletir sobre o verdadeiro sentido de patrimônio. A história de BH não é feita apenas de concreto e monumentos; ela é feita da força das famílias que, mesmo diante do apagamento e do deslocamento forçado, reinventaram a vida, preservaram seus saberes imateriais e mantiveram o axé aceso no coração da cidade.
Preservar o Ponto de Memória CENSG é garantir que a história dos 128 anos de Belo Horizonte seja contada por inteiro — com a voz, a memória e o protagonismo de quem realmente a construiu.
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