A história de Belo Horizonte não foi escrita apenas em papéis oficiais, mas no suor negro que escorreu entre as pedras da fundação. Há 125 anos, o Senhor Pedro Antônio e sua esposa Laurita chegavam da região de Congonhas com um fardo pesado: ele, pedreiro de mão cheia; ela, cozinheira de alma farta. Chegaram para erguer uma cidade que os odiava. Em uma capital racista e exploradora, eles eram a mão de obra semi-escravizada que levantava os palácios onde nunca seriam convidados a entrar.
Entre 1900 e 1925, sofreram o exílio dentro da própria cidade. Expulsos do centro, refugiados na Lagoinha, sentiram na pele o açoite do preconceito. Mas Pedro Antônio não era um homem qualquer. Ele carregava a luz da Umbanda.
Em uma noite de agonia e opressão na Lagoinha, o invisível se manifestou. Um Preto Velho surgiu em seus sonhos como um clarão na escuridão: — "Saia daqui, meu filho. Onde o pé pisa hoje, a alma não floresce. Vá para o mato, pois lá os Pretos Velhos terão uma casa e você terá sua família."
O milagre se fez matéria quando um amigo lhe ofereceu um lote a prestações, "depois da pedreira", no meio da mata fechada. Pedro não hesitou. Ele não estava comprando terra; estava comprando liberdade. Aquele chão bruto, longe dos olhos da elite, tornaria-se o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Ali, na Rua Amarílis, 231, no bairro Caiçara, a resistência negra plantou sua bandeira.
Há 125 anos, a Rua Amarílis, 231, não é apenas um número. É o quilombo vivo da família de Mestre Guiné. Uma linhagem que sobreviveu à expulsão, venceu o racismo e transformou um lote no meio do mato em um templo eterno de cultura, fé e capoeira.






