Total de visualizações de página

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mestra Mae Ieda

Resumo: Este artigo analisa a convergência entre a agenda política do Julho das Pretas e a preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam), matriarca e benzedeira do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. O estudo aborda a liderança religiosa e comunitária das mulheres negras como uma tecnologia ancestral de cura, acolhimento social e salvaguarda do patrimônio cultural afro-mineiro, demonstrando como a transmissão oral e a pedagogia de terreiro sustentam as lutas contemporâneas antirracistas no Brasil.

Palavras-chave: Mãe Ieda. Julho das Pretas. Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Matriarcado. Ancestralidade. Patrimônio Imaterial.

1. Introdução

O mês de julho consolida-se no calendário nacional como um período central para a visibilidade e a mobilização política das mulheres negras no Brasil. No âmbito das celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela (25 de julho), o movimento Julho das Pretas pauta o combate ao racismo estrutural, ao machismo e às desigualdades sociais, promovendo o protagonismo e a busca pelo bem-viver.

Nesse cenário de reafirmação de direitos, a homenagem à memória de Mãe Ieda (In Memoriam) emerge como um compromisso com a história da cultura afro-brasileira em Minas Gerais. Liderança e guardiã do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — instituição centenária que atua como ponto de convergência comunitária e salvaguarda do patrimônio imaterial —, Mãe Ieda personificou a união entre a devoção sagrada, o acolhimento social e a resistência política.

Este artigo analisa a trajetória de Mãe Ieda no contexto do Julho das Pretas, evidenciando como a sabedoria das matriarcas de terreiro fundamenta a continuidade das lutas emancipatórias das mulheres negras contemporâneas.

2. Fundamentação Teórica: O Matriarcado Negro e a Pedagogia do Terreiro

A atuação das lideranças femininas de matriz africana no Brasil dialoga diretamente com os conceitos de ancestralidade, decolonialidade e patrimônio vivo. Conforme destacam os estudos sobre as corporatividades afro-diaspóricas (SIMAS & RUFINO, 2018), o terreiro e os centros de tradição funcionam como polos de resistência cultural e social diante do apagamento histórico promovido pela colonialidade.

"O saber da matriarca não se restringe ao espaço ritualístico; ele constitui uma tecnologia social de preservação da vida, onde a reza, o uso das ervas e o acolhimento funcionam como ferramentas formais de saúde, cidadania e proteção comunitária."

A trajetória de Mãe Ieda insere-se nessa tradição de cuidado integral. Na condição de benzedeira e guardiã de costumes seculares, sua liderança demonstrou que a preservação da memória e a transmissão oral para os mais jovens são pilares indispensáveis para a construção da identidade e do pertencimento étnico-racial.

3. Desenvolvimento: A Tradição em Ato no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças

O Centro Espírita Nossa Senhora das Graças construiu uma história sólida de articulação comunitária e salvaguarda da cultura afro-mineira. Sob a regência de Mãe Ieda, a instituição consolidou sua atuação a partir de eixos fundamentais:

  • Práticas de Cura e Medicina Popular: O exercício do benzedor, o conhecimento das folhas e a escuta acolhedora como recursos de saúde física e espiritual para a população periférica.

  • Acolhimento Comunitário: A transformação do espaço tradicional em um centro de apoio social, garantindo a sustentação de famílias e a promoção da dignidade humana.

  • Salvaguarda das Expressões Tradicionais: O fortalecimento do Ponto de Cultura, incentivando manifestações como a capoeira, as danças tradicionais e a preservação dos ritmos sagrados como estratégias de formação cidadã.

                    MÃE IEDA (IN MEMORIAM)
        (Matriarca, Benzedeira e Guardiã das Tradições)
                             │
                             ▼
            CENTRO ESPÍRITA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS
            (Preservação do Patrimônio e da Memória)
                             │
                             ▼
                     JULHO DAS PRETAS
       (Afirmação Política, Visibilidade e Continuidade)
                             │
            ┌────────────────┴────────────────┐
            ▼                                 ▼
   Acolhimento Comunitário          Fortalecimento da Identidade
   e Justiça Social                 e da Cultura Afro-Mineira

No Julho das Pretas, a exaltação a Mãe Ieda reafirma a premissa de que a marcha e as conquistas do movimento negro atual só são possíveis porque matriarcas pavimentaram o caminho em momentos de adversidade. O reconhecimento de seu legado combate o apagamento histórico e reafirma a relevância das mulheres negras na formação cultural e social do país.

4. Considerações Finais

A preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam) no âmbito do Julho das Pretas representa um ato de justiça histórica e de afirmação dos saberes ancestrais.

A vida e a obra de Mãe Ieda no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças demonstram que a verdadeira liderança se consolida no compromisso diário com a comunidade, com a cultura popular e com a dignidade humana. Seu legado permanece vivo nas práticas de ensino, nas manifestações de rua, na capoeira e na continuidade das ações antirracistas, inspirando novas gerações a manterem acesa a chama da resistência e do bem-viver.

Referências Bibliográficas

  • BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007.

  • MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

  • SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018.

  • WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.

Capoeira e Jogos Africanos na Formação e na Escola: A Pedagogia Decolonial do Projeto "Educando Capoeira" no Programa Egbara Wa (UEMG)

 

Capoeira e Jogos Africanos na Formação e na Escola: A Pedagogia Decolonial do Projeto "Educando Capoeira" no Programa Egbara Wa (UEMG)

Resumo: Este artigo analisa a experiência pedagógica e extensionista do projeto Educando Capoeira, conduzido pelo Mestre Guiné no âmbito do Programa Saberes Tradicionais — Egbara Wa, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), sob a coordenação da Professora Dra. Vitória Régia. O estudo investiga a metodologia do projeto, estruturada de forma integrada entre a formação acadêmica — por meio de palestras na Faculdade de Educação (FaE/UEMG - Unidades Ibirité e Cidade Jardim) — e a aplicação prática através de oficinas de Capoeira e Jogos Africanos para estudantes do Ensino Médio em escolas públicas. Destaca-se a trajetória de mais de dois decênios do Mestre Guiné na Educação Infantil e Básica como Mestre dos Saberes Tradicionais. Conclui-se que o projeto consolida uma práxis decolonial eficaz no combate ao racismo estrutural e na aproximação entre universidade, escola e saberes populares.

Palavras-chave: Educando Capoeira. Mestre Guiné. Saberes Tradicionais. FaE-UEMG. Jogos Africanos. Ensino Médio. Decolonialidade.

1. Introdução

A inclusão dos saberes e práticas corporais de matriz africana no espaço universitário e na educação básica consolida-se como um movimento urgente de decolonização do conhecimento e enfrentamento ao racismo estrutural. Historicamente, o sistema educacional ocidentalizado privilegiou a escrita e a racionalidade cartesiana, relegando a oralidade, o jogo ancestral, a corporalidade e as tecnologias populares a um lugar secundário na produção científica e pedagógica formal.

No âmbito da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) — articulando a Faculdade de Educação (FaE/Ibirité) e a Unidade Cidade Jardim (BH) —, essa transformação epistemológica ganhou materialidade através do Programa Saberes Tradicionais — Egbara Wa, sob a coordenação da Professora Dra. Vitória Régia. O programa foi concebido para aproximar a formação acadêmica do conhecimento vivo dos mestres da cultura popular, em pleno alinhamento às Leis Federais 10.639/03 e 11.645/08.

Foi no contexto do Egbara Wa que o Mestre Guiné — reconhecido Mestre dos Saberes Tradicionais com uma trajetória de mais de 20 anos de atuação dedicada à Educação Infantil e Ensino Básico — implementou as ações do seu projeto Educando Capoeira. A proposta metodológica desdobrou-se em dois ambientes complementares de atuação:

  • Palestras Acadêmicas na Universidade (FaE-UEMG): Espaço de reflexão teórica, debate e transmissão oral direcionado a licenciandos, docentes e pesquisadores sobre a decolonialidade, a ludicidade afro-diaspórica e a importância dos mestres tradicionais na educação.

  • Oficinas Práticas nas Escolas (Ensino Médio): Aplicação direta dos Jogos Africanos e da Capoeira junto a estudantes do Ensino Médio da rede pública, promovendo o pertencimento étnico-racial, a conscientização histórica e o desenvolvimento socioemocional.

Este artigo analisa essa articulação entre universidade, escola pública e saber tradicional, demonstrando o impacto do projeto Educando Capoeira na formação de novos educadores e na juventude periférica.

2. Fundamentação Teórica: Trajetória, Saberes Tradicionais e Decolonialidade

A fundamentação do projeto Educando Capoeira assenta-se na bagagem acumulada do Mestre Guiné ao longo de mais de duas décadas de experiência com a infância e a juventude. A validação do Mestre de Saberes Tradicionais no ambiente universitário rompe com a hierarquia eurocêntrica que reconhece apenas o título acadêmico formal como fonte legítima de saber (MIGNOLO, 2003; WALSH, 2009).

"A capoeira e os jogos tradicionais africanos na escola e na universidade não são meras atividades recreativas; constituem tecnologias ancestrais de transmissão de filosofia, ética, estratégia corporal, musicalidade e preservação da memória histórica da diáspora."

— (Reflexão inspirada em SIMAS & RUFINO, 2018)

A experiência acumulada pelo Mestre Guiné na Educação Infantil traz uma sensibilidade pedagógica única para o trabalho com estudantes do Ensino Médio e para as palestras na FaE-UEMG. O jogo e a roda funcionam como linguagens de acolhimento, permitindo desconstruir o racismo estrutural e reconstruir a autoimagem de jovens negros e não negros no ambiente escolar.

3. Desenvolvimento e Metodologia do Projeto no Egbara Wa

A estrutura do projeto Educando Capoeira no Programa Egbara Wa desenhou um fluxo contínuo entre a teoria acadêmica e a práxis escolar:

                  ┌──────────────────────────────────────────────────┐
                  │             MESTRE GUINÉ (20+ ANOS)              │
                  │         Mestre dos Saberes Tradicionais          │
                  └────────────────────────┬─────────────────────────┘
                                           │
                                           ▼
                       PROGRAMA SABERES TRADICIONAIS — EGBARA WA
                  (UEMG Cidade Jardim / FaE Ibirité | Coord. Prof.ª Vitória)
                                           │
                           ┌───────────────┴───────────────┐
                           ▼                               ▼
                 PALESTRAS NA UNIVERSIDADE        OFICINAS NAS ESCOLAS
                    (FaE/UEMG - Acadêmicos)        (Estudantes do Ensino Médio)
                           │                               │
                ┌──────────┴──────────┐          ┌─────────┴──────────┐
                ▼                     ▼          ▼                    ▼
           Teoria da             Valorização    Jogos Africanos      Capoeira e
         Decolonialidade          dos Saberes    Tradicionais        Roda Ancestral

3.1. As Palestras na Faculdade de Educação (FaE/UEMG)

Nas palestras ministradas para a comunidade universitária, o Mestre Guiné abordou a urgência de integrar os Saberes Tradicionais nos currículos de formação de professores. Apresentou o projeto Educando Capoeira como um estudo de caso bem-sucedido, demonstrando como as metodologias construídas na Educação Infantil ao longo de 20 anos podem fundamentar práticas pedagógicas antirracistas e inclusivas no ensino superior.

3.2. As Oficinas Práticas nas Escolas Públicas (Ensino Médio)

Nas escolas parceiras, as oficinas com os estudantes do Ensino Médio focaram em dois eixos lúdico-corporais:

  • Jogos Africanos Tradicionais: Vivência de jogos e brincadeiras de diversas regiões do continente africano, desenvolvendo raciocínio tático, cooperação, foco, agilidade e valorização da cultura ancestral.

  • Capoeira Ancestral e Pedagógica: A prática da roda, do canto, da musicalidade (berimbau, atabaque, pandeiro) e da movimentação, oferecendo aos jovens do Ensino Médio uma ferramenta potente de expressão, disciplina consciente e orgulho de suas raízes.

4. Considerações Finais

A realização do projeto Educando Capoeira no âmbito do Programa Saberes Tradicionais — Egbara Wa, sob a coordenação da Professora Dra. Vitória Régia na UEMG (FaE/Ibirité e Cidade Jardim), representa um modelo exemplar de integração entre a universidade pública, a escola de Educação Básica e a comunidade.

A trajetória de mais de 20 anos do Mestre Guiné na Educação Infantil e sua atuação como Mestre dos Saberes Tradicionais demonstraram que a ponte entre palestras acadêmicas e oficinas com jovens do Ensino Médio é o caminho para uma transformação educacional verdadeira. O projeto reafirma que combater o racismo estrutural exige reconhecer e vivenciar as tecnologias ancestrais dos jogos africanos e da capoeira como saberes fundamentais para a formação humana e cidadã.

Referências Bibliográficas

  • BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007.

  • MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

  • SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018.

  • WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.

MESTRE GUINE E MAE REGINA e o Ponto de Cultura CENSG NA Universidade Estadual de Minas Gerais - UEMG

Saberes de Terreiro na Academia: 
A Pedagogia das Danças Afro-Brasileiras, Ritmos Sagrados e Memória Centenária na UEMG Ibirité

Resumo: Este artigo analisa a experiência pedagógica e de extensão desenvolvida na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Unidade Ibirité, pautada nas sabedorias e práticas corporais do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. A partir da salvaguarda de uma tradição secular de 128 anos, o estudo investiga a inserção das Danças Afro-Brasileiras e dos Toques Sagrados no ensino superior. Sob a regência da Mestra Mãe Regina, analisam-se as manifestações gestuais das danças dos Pretos Velhos e Caboclos. Sob a condução do Mestre Guiné, examina-se a relação entre a rítmica dos tambores e a estruturação dos arquétipos umbandistas. Conclui-se que a presença dos mestres tradicionais na universidade tenciona o cânone eurocêntrico, promovendo uma decolonização do saber por meio do corpo e do ritmo no campo da formação acadêmica e extensionista.

Palavras-chave: Danças Afro-Brasileiras. Umbanda. UEMG Ibirité. Pretos Velhos. Caboclos. Tambores Sagrados. 

Decolonialidade. 1. Introdução A inclusão dos saberes tradicionais de matriz africana e afro-indígena no espaço universitário consolida-se como um movimento urgente de decolonização do conhecimento e validação das epistemologias de terreiro. Historicamente, a universidade de matriz ocidental estabeleceu uma hierarquia que privilegiou a escrita e a racionalidade cartesiana, relegando a oralidade, a sabedoria ancestral e as expressões corporais a um lugar secundário na produção científica formal. No contexto da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Unidade Ibirité, instituição com marcante atuação na formação de educadores e no desenvolvimento de projetos de extensão comunitária e cultural, o diálogo entre a tradição oral e a formação acadêmica encontrou um terreno férito na vivência proporcionada pelo Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — instituição centenária que acumula 128 anos de história, resistência e salvaguarda da memória comunitária e religiosa em Minas Gerais. A transmissão desses saberes no ambiente acadêmico da UEMG Ibirité estruturou-se a partir de dois eixos prático-conceituais fundamentais: Mestra Mãe Regina: Condução do ensino das Danças Afro-Brasileiras, voltando o olhar pedagógico para as expressões rituais e corporais das linhas dos Pretos Velhos e dos Caboclos. Mestre Guiné: Abordagem da dimensão rítmico-sonora, trabalhando os tambores sagrados, suas cadências e a articulação dos arquétipos umbandistas no corpo em movimento. Este artigo busca documentar e analisar criticamente essa experiência, refletindo sobre como a aliança entre a história centenária do terreiro, a dança e a musicalidade contribui para a formação de uma práxis pedagógica integrada, sensível e pautada no patrimônio cultural imaterial. 

2. Fundamentação Teórica: O Terreiro como Matriz Epistêmica A presença dos saberes tradicionais na UEMG Ibirité estabelece um diálogo direto com os conceitos de decolonização do saber (MIGNOLO, 2003; WALSH, 2009). Romper com o viés eurocêntrico da academia exige não apenas diversificar a bibliografia teórica, mas reconfigurar quem ensina e quais metodologias são reconhecidas como válidas na sala de aula universitária. "O corpo no terreiro é o próprio documento e suporte de memória. Não há separação entre a razão que pensa e o corpo que dança; o conhecimento é corporificado e vivido na experiência do rito e do ritmo." > — (Reflexão inspirada em SIMAS & RUFINO, 2018) Nesse panorama, o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, ao longo de seus 128 anos de existência, atua como um verdadeiro espaço epistêmico — um polo produtor de ciência popular, filosofia e preservação do patrimônio imaterial. A transposição desse acervo centenário para a sala de aula universitária desmistifica o terreiro como mero espaço de culto, posicionando-o como centro gerador de pedagogia, arte e cultura. Ao vivenciar as danças e os toques sagrados na universidade, estudantes e pesquisadores da Unidade Ibirité experimentam o aprendizado por meio do saber corporificado (embodied knowledge), em que o movimento, a vibração sonora e a memória ancestral tornam-se ferramentas formais de investigação teórica, cênica e pedagógica. 

3. Desenvolvimento e Eixos Pedagógicos das Aulas O percurso formativo ministrado pelos Mestres na UEMG Ibirité articulou história, gestualidade e musicalidade em uma metodologia vivencial e reflexiva.


 ┌──────────────────────────────────────────────────┐ │ CENTRO ESPÍRITA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS (128 A) │ └────────────────────────┬─────────────────────────┘ │ ┌───────────────┴───────────────┐ ▼ ▼ MESTRA MÃE REGINA MESTRE GUINÉ (Danças Afro-Brasileiras) (Tambores e Arquétipos) │ │ ┌──────────┴──────────┐ ┌─────────┴──────────┐ ▼ ▼ ▼ ▼ 

Pretos Velhos Caboclos Rítmica dos Matrizes (Ancianidade/ (Altivez/ Atabaques Arquétipicas Enraizamento) Força) (Toques/Pulsão) (Expressão) 



3.1. Eixo Mestra Mãe Regina: Danças Afro-Brasileiras e Gestualidade Sagrada A condução pedagógica da Mestra Mãe Regina concentrou-se na pedagogia do movimento e no vocabulário gestual de duas linhas constitutivas da Umbanda: A Linha dos Pretos Velhos A dança caracteriza-se pela gravidade e pelo enraizamento. O corpo expressa a ancianidade por meio de movimentos curvados, pés firmes no chão e passos cadenciados, traduzindo valores como a paciência, a sustentação do tempo, a resiliência e o acolhimento. 

 Técnica Corporal: Exige flexão de joelhos, rebaixamento do centro de gravidade e economia de energia, construindo uma poética de cura, paciência e sabedoria ancestral. A Linha dos Caboclos Em contraposição, a gestualidade dos Caboclos evoca a altivez, a verticalidade e a territorialidade das matas. A movimentação é marcada pela expansão do tórax, braços abertos que simulam o empunhar do arco e da flecha, e pisadas firmes que demarcam o domínio do espaço.

 Técnica Corporal: Desenvolve a presença cênica, a firmeza postural, a agilidade e a conexão com a energia vital da natureza e dos territórios. 3.2. Eixo Mestre Guiné: Tambores, Ritmos Sagrados e Arquétipos Umbandistas Sob a regência do Mestre Guiné, as aulas abordaram a dimensão sônico-vibracional e a estrutura simbólica que rege as corporificações na Umbanda: A Rítmica dos Tambores Sagrados: O atabaque e os instrumentos de percussão não funcionam apenas como acompanhamento musical, mas como condutores energéticos e organizadores do espaço-tempo pedagógico. As variações rítmicas (como os toques Nagô, Ijexá e Congo de Ouro) possuem métricas específicas que orientam a aceleração, a pausa e a cadência dos passos dos praticantes. 
 Os Arquétipos Umbandistas: O Mestre Guiné trabalhou a relação entre a vibração dos toques e a evocação dos arquétipos das entidades. O estudo dos arquétipos permite entender essas figuras não apenas em termos religiosos, mas como matrizes de psicologia, identidade e expressão corporal (força, doçura, sabedoria, justiça). A percussão atua como o estímulo auditivo e motor que desencadeia a transformação da postura e da dinâmica do corpo no espaço. 



 4. Considerações Finais A integração dos saberes centenários do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, sob a condução da Mestra Mãe Regina e do Mestre Guiné no âmbito da UEMG - Unidade Ibirité, representa um marco para a construção de uma pedagogia universitária verdadeiramente plural, inclusiva e decolonial. Ao reunir a história viva de 128 anos de tradição, a riqueza gestual das danças de Pretos Velhos e Caboclos e a precisão rítmico-arquétipica dos tambores, a experiência demonstra que a ciência acadêmica se fortalece quando reconhece a legitimidade das tecnologias ancestrais de transmissão oral e corporal. Este trabalho reitera a necessidade contínua de abrir as portas do campus Ibirité para as comunidades de terreiro, garantindo a salvaguarda e a difusão do patrimônio cultural afro-brasileiro no ensino superior. 


 Referências Bibliográficas BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007. MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018. WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Como a Capoeira Atua como Ferramenta de Inclusão e Cidadania para Crianças

 

Mais que uma Roda: Como a Capoeira Atua como Ferramenta de Inclusão e Cidadania para Crianças

Se você já presenciou o magnetismo de uma roda de capoeira, sabe que a energia ali é contagiante. O som do berimbau, o ritmo do palmeado e o coro que responde ao canto criam um ambiente único. Mas, para além da manifestação cultural e da atividade física, você já parou para pensar no impacto invisível — e profundo — que essa arte tem no desenvolvimento de uma criança?

Muitas vezes vista apenas como uma dança ou uma luta, a capoeira é, na verdade, um dos ecossistemas pedagógicos mais completos que existem. Quando levada para dentro de comunidades e projetos sociais, ela se transforma em uma chave poderosa para a inclusão social, a disciplina e a construção da cidadania.

Neste artigo, vamos explorar como o jogo da capoeira atua de forma prática para moldar o futuro das novas gerações.

O Berimbau como Professor: Disciplina com Afeto

Diferente de modalidades esportivas tradicionais que seguem regras rígidas e lineares, a capoeira ensina através da convivência, do axé e do respeito mútuo. Dentro de um ambiente de treino focado na educação, a criança entende desde cedo que a roda só acontece se houver colaboração. Não existe jogo de um homem só.

  • Respeito à Ancestralidade: O aluno aprende a ouvir os mais velhos, a respeitar o comando de quem está no berimbau e a entender o valor da tradição.

  • Autoestima e Pertencimento: A roda de capoeira oferece um lugar onde a criança é vista, ouvida e celebrada. Cada evolução de movimento, cada música decorada e cada batido de palma é uma vitória compartilhada que fortalece a autoconfiança de quem está começando.

[INSERIR FOTO: Uma foto bem bonita das crianças na roda ou tocando instrumentos]

Desenvolvimento Motor e Expressão Corporal na Infância

Do ponto de vista físico, a capoeira é impecável. Ela trabalha a lateralidade, a flexibilidade, o equilíbrio e a coordenação motora de forma totalmente lúdica.

Para uma criança em fase de crescimento, gingar, dar um rolê ou arriscar uma bênção não são apenas golpes de agilidade; são estímulos neurológicos e motores que refletem diretamente no seu desempenho escolar e na sua consciência corporal. A música entra como o fio condutor desse processo, desenvolvendo o ritmo, a percepção auditiva e a expressão vocal desde cedo.

Transformação Social: Da Roda para a Vida

A capoeira nasceu como um grito de liberdade e resistência, e essa essência se mantém viva até hoje. Em contextos onde faltam oportunidades de lazer, cultura e esporte, ela chega preenchendo lacunas, oferecendo uma alternativa de vida saudável, foco e horizontes ampliados para as famílias.

Projetos socioculturais que utilizam a capoeira como base não buscam formar apenas atletas ou exímios jogadores; o foco principal é formar cidadãos conscientes de seus direitos, jovens que valorizam sua cultura e que compreendem o peso real da palavra "comunidade".

[INSERIR FOTO: O grupo reunido, destacando a união e a alegria dos alunos]

Conclusão: A Importância de Apoiar a Cultura Popular

Apoiar a capoeira nas escolas, creches e núcleos comunitários é investir diretamente no futuro da nossa sociedade. É garantir que a história viva do nosso povo continue sendo contada e cantada de geração em geração, salvaguardando o nosso patrimônio imaterial.

Seja você um pai buscando uma atividade transformadora para seu filho, um educador ou um entusiasta da nossa cultura, lembre-se: a capoeira educa, inclui e liberta.

💬 Participe da nossa comunidade!

E você, já viu de perto o impacto da capoeira na vida de uma criança ou na sua própria trajetória? Deixe o seu comentário aqui embaixo compartilhando a sua história com a gente!

🚀 Quer conhecer mais sobre as nossas ações e projetos? Acompanhe nossas atualizações aqui no blog, siga nossas redes sociais e não se esqueça de se in

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sete Lagoas tremeu: "Vem Jogar Mais Eu" consolida-se como o grande palco da Capoeira em Minas!

 

Sete Lagoas tremeu: "Vem Jogar Mais Eu" consolida-se como o grande palco da Capoeira em Minas!

Foto Minas Tem Capoeira


A energia da capoeira tomou conta de Sete Lagoas neste final de semana, e o resultado não poderia ter sido outro: um sucesso avassalador que já entra para a história da nossa cultura! O campeonato "Vem Jogar Mais Eu" transformou a cidade no epicentro da arte-luta, reunindo mais de 200 atletas inscritos em uma demonstração de força, técnica e tradição.

O que vimos foi simplesmente épico!

Não foi apenas um evento esportivo; foi uma celebração da identidade cultural mineira. Do primeiro berimbau afinado até o último golpe de capoeira, a arena vibrou com a entrega total de cada praticante. O público lotou as arquibancadas, criando uma atmosfera eletrizante que contagiou até os mais céticos, enquanto a crítica especializada já aponta: o nível técnico apresentado em Sete Lagoas atingiu um patamar elevadíssimo.

Por que o "Vem Jogar Mais Eu" fez história?

  • Recorde de Participação: Com mais de 200 atletas, o evento provou a força da união e o crescimento constante da capoeira em nossa região.

  • Sucesso de Público e Crítica: A organização impecável e o alto nível dos jogos conquistaram tanto os amantes da modalidade quanto os novos espectadores.

  • Vitrine Cultural: Sete Lagoas reafirmou sua posição estratégica no mapeamento cultural de Minas Gerais, servindo de palco para grandes nomes e promessas do esporte.

Para quem esteve lá, a memória do som dos atabaques e a destreza dos capoeiristas ficará marcada. Para quem não pôde comparecer, fica a certeza: o "Vem Jogar Mais Eu" não é apenas um campeonato, é o movimento que a nossa capoeira precisava para ganhar ainda mais fôlego.

A pergunta que fica é: se o nível de hoje já foi impressionante, o que podemos esperar da próxima edição? Sete Lagoas agradece por essa aula de resistência, arte e superação!

E você, o que achou dos melhores momentos desse encontro? Comente aqui no blog!

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Nasce a Rede Nacional Capoeira e Cultura Viva: Articulação, Política e Fortalecimento

 

Nasce a Rede Nacional Capoeira e Cultura Viva: Articulação, Política e Fortalecimento

É com grande entusiasmo que anunciamos a consolidação da Rede Nacional Capoeira e Cultura Viva.

Esta rede não é uma escola, não é um grupo de capoeira específico e não funciona como uma associação tradicional. Somos uma estrutura de articulação política e mobilização, dedicada exclusivamente a debater, propor e fortalecer as políticas públicas voltadas para a Capoeira sob a égide da Política Nacional de Cultura Viva.

Nossa Força no Ambiente Digital

A capoeira é feita de corpo e movimento, mas hoje também se constrói através da incidência estratégica no ambiente digital. A Rede Nacional Capoeira e Cultura Viva já nasce com uma presença sólida e representativa:

  • Alcance Digital: Nossa página no Instagram já conecta e dialoga com mais de 7.500 pessoas, formando uma audiência engajada que valoriza o debate qualificado sobre a nossa cultura.

  • Articulação Direta: Contamos com grupos de WhatsApp que reúnem mais de 300 lideranças de todo o país. Este é o nosso "círculo de mestres e gestores", onde o diálogo é constante, a troca é horizontal e o compromisso com a causa é coletivo.

Qual é o nosso propósito?

A Capoeira precisa ser tratada como o patrimônio cultural que ela é. O objetivo da nossa rede é atuar nos espaços de tomada de decisão, garantindo que os fazedores de capoeira tenham voz ativa na construção das leis, editais e mecanismos que financiam e protegem as culturas de matriz popular.

Ao nos organizarmos através do viés da Cultura Viva, buscamos o reconhecimento dos nossos terreiros, academias e rodas como Pontos de Cultura, assegurando que o investimento público chegue a quem mantém a nossa tradição viva diariamente.

Somos uma rede de diálogo, planejamento e incidência política.

Convidamos todas as lideranças e praticantes que compartilham deste compromisso a caminharem conosco. A capoeira não pode ficar à margem das políticas culturais; ela precisa ser protagonista.

Rede Nacional Capoeira e Cultura Viva Articular para transformar. Fortalecer para perpetuar.

domingo, 19 de abril de 2026

A Raiz Ancestral: O que o Dia dos Povos Indígenas tem a ver com a nossa Capoeira?

 

Título: A Raiz Ancestral: O que o Dia dos Povos Indígenas tem a ver com a nossa Capoeira?

Por: Mestre Guiné | WebTV Capoeira Videos


Muitas vezes, ao falarmos de Capoeira, nosso pensamento voa imediatamente para a África. E com razão! Mas hoje, 19 de abril, convidamos você a olhar para o chão que pisamos. No Dia dos Povos Indígenas, é fundamental reconhecer que a Capoeira, como
manifestação genuinamente brasileira, bebeu também da fonte dos povos originários.

O Encontro de Culturas na Mata

A Capoeira que praticamos hoje é fruto de um caldeirão cultural. Historicamente, os quilombos não eram formados apenas por africanos escravizados, mas também por indígenas que resistiam à colonização. Nesse encontro de resistências, houve troca de saberes:

  • A caça e a sobrevivência: Táticas de emboscada e movimentação baixa.

  • A medicina natural: O uso de ervas que muitos mestres antigos dominavam.

  • O Berimbau: Embora sua origem seja africana, o arco musical encontrou no Brasil madeiras e cabaças que deram a sonoridade que conhecemos hoje.

O "Caboclo" na Roda

Quem nunca cantou um ponto ou uma louvação mencionando o "Caboclo"? Na cosmologia da Capoeira e de diversas religiões de matriz africana que caminham juntas, o Caboclo representa a força da terra, o dono da mata, o espírito guerreiro que não se curva. Respeitar o dia de hoje é honrar essa entidade que vive na nossa musicalidade e no nosso axé.

Preservação e Futuro

Assim como lutamos para que a Capoeira seja reconhecida e respeitada nas escolas e políticas públicas, os povos indígenas lutam pela demarcação de suas terras e pela manutenção de suas línguas e costumes.

A resistência de um é a resistência de todos.

domingo, 5 de abril de 2026

Oficio do Mestre na Comissao de Cultura da ALMG- Fala do Mestre Guine


 

Oficio do Mestre - Rodas na Abertura da Mostra Contagem


 

Oficio do Mestre - Roda na Feira Preta


 

Oficio do Mestre Contagem - Roda do Bairro Industrial


 

Oficio do Mestre Contagem . Roda do Bairro Nacional


 

Movimento ancestral - Oficio do Mestre Roda no Eldorado


 

Mestre Guine e Deputada Andreia de Jesus no CRJ falando sobre o Afromineridade Capoeira


 

Movimento Ancestral / Oficio do Mestre !! Capoeira em Contagem .



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Contos de AXE - Da Lagoinha ao Bairro Santo Andre - Resistencia e Fe

 A história de Belo Horizonte não foi escrita apenas em papéis oficiais, mas no suor negro que escorreu entre as pedras da fundação. Há 125 anos, o Senhor Pedro Antônio e sua esposa Laurita chegavam da região de Congonhas com um fardo pesado: ele, pedreiro de mão cheia; ela, cozinheira de alma farta. Chegaram para erguer uma cidade que os odiava. Em uma capital racista e exploradora, eles eram a mão de obra semi-escravizada que levantava os palácios onde nunca seriam convidados a entrar.

Entre 1900 e 1925, sofreram o exílio dentro da própria cidade. Expulsos do centro, refugiados na Lagoinha, sentiram na pele o açoite do preconceito. Mas Pedro Antônio não era um homem qualquer. Ele carregava a luz da Umbanda.

Em uma noite de agonia e opressão na Lagoinha, o invisível se manifestou. Um Preto Velho surgiu em seus sonhos como um clarão na escuridão: — "Saia daqui, meu filho. Onde o pé pisa hoje, a alma não floresce. Vá para o mato, pois lá os Pretos Velhos terão uma casa e você terá sua família."

O milagre se fez matéria quando um amigo lhe ofereceu um lote a prestações, "depois da pedreira", no meio da mata fechada. Pedro não hesitou. Ele não estava comprando terra; estava comprando liberdade. Aquele chão bruto, longe dos olhos da elite, tornaria-se o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Ali, na Rua Amarílis, 231, no bairro Caiçara, a resistência negra plantou sua bandeira.

Há 125 anos, a Rua Amarílis, 231, não é apenas um número. É o quilombo vivo da família de Mestre Guiné. Uma linhagem que sobreviveu à expulsão, venceu o racismo e transformou um lote no meio do mato em um templo eterno de cultura, fé e capoeira.


Historias do Axe ; Onde o Coração Gira: O Despertar de Mãe Ieda

 

Onde o Coração Gira: O Despertar de Mãe Ieda

Em 1953, o bairro Caiçara era o cenário de um milagre cotidiano. No quintal da Rua Icaraí 315, entre o orvalho nas folhas de Guiné e as mãos de Dona Alzira que curavam as dores de Belo Horizonte, nasceu Ieda. Ela não apenas cresceu naquele solo; ela foi tecida com as rezas de sua mãe. Menina, Ieda não brincava apenas de boneca; ela colaborava com o axé, aprendendo que o amor ao próximo é a cultura mais profunda que um povo pode ter.

Aos 15 anos, Ieda tinha o brilho da descoberta nos olhos. Numa tarde qualquer, enquanto caminhava pelas ruas do bairro que conhecia como a palma da mão, seus passos foram guiados — não por ela, mas por uma força invisível — até a Rua Passa Quatro. Lá, um quartinho humilde exalava um perfume de arruda e fumo de corda que lhe era familiar. Era o Quartinho do Pai Joaquim.

No umbral daquela porta, o destino sorriu. Dona Ana, fiel amiga de sua mãe, a viu e, com um gesto que parecia um abraço, a convidou para entrar. Ieda, ainda jovem, sentiu o coração bater mais forte ao ver a imagem do Sr. Pai Joaquim. Havia ali um silêncio que falava, uma paz que transbordava.

O sábio Preto Velho olhou para os bancos da assistência. Ele não buscava grandes cantores, buscava corações dispostos. "Venham", chamou ele, "venham formar o Coral da Umbanda". Ieda se levantou, sentindo que cada passo em direção àquele coro era um passo em direção a si mesma. Eles começaram a cantar para que a Gira da casa ganhasse força, para que a música limpasse os caminhos.

Ieda abriu a voz. Mas, após vinte minutos de cantoria, a voz já não saía mais da garganta — saía da alma. A luz das velas pareceu dançar num ritmo diferente. O mundo ao seu redor começou a balançar, as paredes do quartinho se tornaram infinitas e a cabeça da jovem Ieda começou a rodar, rodar como se o universo inteiro estivesse girando dentro dela.

Quando o silêncio finalmente se fez e Ieda "acordou", o tempo havia se transformado. Naquele breve transe, o céu e a terra haviam se tocado. Naquele instante, o Grande Preto Velho Pai Tranca Rua das Almas tomou sua mão espiritual. Foi um encontro de almas, um pacto de luz que não se romperia jamais.

Daquele dia em diante, Ieda nunca mais caminhou sozinha. A menina que nasceu no quintal da benzedeira tornou-se a guardiã de um mistério maior. Pai Tranca Rua das Almas a acompanhou com sua bengala de luz e sua sabedoria ancestral até o último segundo de sua vida, honrando cada nota do coral que, um dia, o chamou para a terra.

A voz de Mãe Ieda se calou para o mundo, mas o seu canto continua vivo em cada benção que seus filhos e netos dão, provando que o amor de uma mãe e a força de um guia são cordões que nem

Projeto Axe de Historias - "O Menino que Comeu a Proteção: A Linhagem de Dona Alzira e Mestre Dunga"

 

Projeto Axe de histórias - "O Menino que Comeu a Proteção: A Linhagem de Dona Alzira e Mestre Dunga"

No final da década de 1980, o número 315 da Rua Icaraí, no bairro Caiçara, em Belo Horizonte, era muito mais que uma casa. Era um território de cura e axé. Ali, o ar era impregnado pelo perfume das ervas sagradas que Mestre Dona Alzira, a grande benzedeira da região, manipulava com sabedoria há mais de 60 anos. Entre um atendimento e outro, ela cuidava de seus netos, Diego e seu irmão, cercando-os de um universo místico que poucas crianças tiveram acesso.

O quintal da Rua Icaraí tinha quarenta metros de mistérios verdes. Por muito tempo, Dona Alzira intrigou-se com o sumiço constante de suas ervas. Ela reclamava com a filha que os cachorros deviam estar comendo a Alfafa e o Guiné, pois as plantas desapareciam misteriosamente.

Até que, em uma manhã de observação silenciosa, Dona Alzira flagrou a verdade: seu neto estava no meio da mata do terreiro, "lambuzado" de Guiné, comendo as folhas com uma alegria radiante. A benzedeira, em vez de brigar, soltou uma gargalhada que selou o destino do menino. Ali, entre as rezas e o cheiro de terra, ele foi batizado pela primeira vez como Guinezinho.

Dona Alzira, que enxergava o valor e o caráter das pessoas, tinha uma grande estima pelo Mestre Dunga (Amadeu). Foi por vontade e confiança dela que os netos foram entregues aos cuidados dele para aprender a arte da Capoeira.

Aos seis anos de idade, a transição aconteceu: do quintal da benzedeira para a roda da Senzala. No momento de receber um apelido, a história das folhas de Guiné devoradas na infância foi contada pelo irmão Diego. A galera da capoeira não perdoou. O diminutivo ficou para trás, e a força da planta sagrada assumiu o comando.

O que nasceu no terreiro da Rua Icaraí 315 ganhou o mundo. Hoje, o nome Mestre Guiné é uma marca de respeito, reconhecida internacionalmente. Mas, em cada berimbau que toca e em cada corpo que fecha, bate o coração daquele menino que, guiado por Dona Alzira e formado pelo Mestre Dunga, descobriu que sua proteção vinha da terra e sua força vinha da raiz.