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domingo, 26 de julho de 2026

 

Educando Capoeira , Cultura da Infância e Patrimônio na Creche Etelvina Caetano: 10 Anos de Prática Educativa com Mestre Guiné e Professor Dendê

Por Mestre Guine 


Quando pensamos na salvaguarda do nosso patrimônio cultural e na formação de uma sociedade antirracista, precisamos olhar para onde a vida comunitária germina: a infância. Na Região Norte de Belo Horizonte, a parceria de uma década entre o projeto Educando Capoeira e a Creche Etelvina Caetano se consolidou como uma das experiências mais bonitas e transformadoras de pedagogia da ancestralidade na Educação Infantil.

Sob a condução do Mestre Guiné e do Professor Dendê, essa trajetória de 10 anos mostra como o jogo, o ritmo e a ludicidade da Capoeira são ferramentas fundamentais para construir novas narrativas desde os primeiros passos das nossas crianças.



1. A Capoeira na Cultura da Infância: O Aprender Brincando

Na Educação Infantil, o corpo é a principal linguagem. Na Creche Etelvina Caetano, a Capoeira não entra como uma modalidade esportiva rígida ou uma sequência mecânica de movimentos, mas como cultura viva e brincadeira ancestral.

Ao longo dessa década, Mestre Guiné e Professor Dendê desenvolveram uma metodologia diária pautada na vivência integrada das nossas matrizes:

  • Oficinas Semanais de Capoeira, Samba de Roda e Maculelê: Toda semana, as crianças vivenciam a pluralidade das manifestações afro-brasileiras. A ginga e o au da Capoeira se somam ao bater dos bastões do Maculelê e à alegria contagiosa do Samba de Roda, desenvolvendo coordenação motor, senso rítmico, musicalidade e pertencimento de forma lúdica.

  • Gestualidade e Bichos: A movimentação corporal vira descoberta; o au, a bananeira e o caranguejo transformam o espaço em um território de imaginação e expressão.

Ao brincar na roda, a criança aprende a respeitar o espaço do outro, a esperar sua vez e a celebrar a presença do colega — pilares essenciais da convivência democrática e do afeto.




2. A Presença Marcante de Mestra Mãe Ieda: Ancestralidade e Escuta

Um dos pilares mais profundos dessa caminhada de dez anos foi a participação inesquecível da Mestra Mãe Ieda. Sua presença trouxe para o ambiente da creche a bênção e a força da tradição oral que só as nossas matriarcas carregam.

Através de palestras e rodas de conversa, Mãe Ieda conectou crianças, educadores e comunidade:

  • Transmissão Oral dos Fundamentos: Em rodas de conversa adaptadas e sensíveis, Mãe Ieda compartilhava a história dos antigos, a importância do respeito aos mais velhos e o valor da nossa identidade afromineira.

  • O Afeto do Terreiro na Escola: A escuta atenta das falas da Mestra ensinou que a educação antirracista se faz com afeto, acolhimento e valorização da sabedoria que vem da raiz.

3. Encontros Nacionais: Intercâmbio Cultural na Região Norte de BH

A dimensão desse trabalho extrapolou as paredes da creche e o próprio município. Marcando esses 10 anos de história, a Creche Etelvina Caetano foi palco de dois grandes Encontros Nacionais, reafirmando o compromisso do projeto com a salvaguarda e o intercâmbio cultural.

Esses eventos contaram com a presença honrosa de Mestres vindos de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, trazendo a diversidade de sotaques e fundamentos da Capoeira do Brasil para dentro da Região Norte de Belo Horizonte:

  • Troca de Saberes e Vivências: As crianças e a comunidade escolar puderam vivenciar a Capoeira com grandes referências nacionais, percebendo que a roda em que jogam semanalmente faz parte de uma grande teia global.

  • Valorização do Território: Trazer mestres de diferentes estados para a creche fortalece a autoestimas dos alunos e transforma a Região Norte em um pólo de efervescência e patrimônio cultural.

4. Uma Década de Formação Comunitária com Mestre Guiné e Professor Dendê

Chegar aos 10 anos de trabalho contínuo em um espaço educativo é fruto de dedicação, sensibilidade e compromisso social. O trabalho conjunto do Mestre Guiné e do Professor Dendê na Creche Etelvina Caetano reflete a essência do Projeto Educando Capoeira: a ponte sólida entre o saber tradicional dos mestres, a pedagogia escolar e a vivência comunitária.

A presença constante dos educadores, somada às oficinas, às rodas de conversa com Mãe Ieda e aos encontros nacionais, criou um vínculo profundo com a comunidade. As crianças que passaram pelas primeiras rodas há dez anos hoje carregam no corpo e na memória o aprendizado do respeito, do ritmo e da autoestima.

Semear no Presente para Colher o Futuro

A experiência da Creche Etelvina Caetano prova que a Capoeira, o Maculelê e o Samba de Roda são a defesa da nossa identidade cultural também na infância — protegendo nossas crianças através da arte e da ancestralidade.

Celebrar essa década de prática educativa do Mestre Guiné e do Professor Dendê, honrando o legado de Mestra Mãe Ieda e a força dos Mestres convidados, é reafirmar que a cultura popular brasileira transforma territórios e constrói um futuro mais justo. Que venham mais muitos anos de axé na Região Norte de Belo Horizonte!

Quando o Terreiro e a Capoeira Ocupam o Poder: A Entrevista do Mestre Guiné na ALMG

Por Mestre Guine 



Há falas que nascem para marcar época. Na entrevista concedida nos corredores da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o Mestre Guiné — liderança do Blog Educando Capoeira e do centenário Centro Espírita Nossa Senhora das Graças (Casa do Pai Mateus) — deu voz ao sentimento de milhões de praticantes e guardiões da cultura popular no Brasil e no mundo.

Descrevendo a dimensão geopolítica, educacional e espiritual da nossa arte, a entrevista ecoou como um manifesto em defesa do patrimônio afromineiro e da salvaguarda das nossas tradições.

1. "A Capoeira é o Braço Armado e a Defesa da Matriz Africana no Mundo"

A declaração central da entrevista na ALMG sintetiza o papel estratégico que a Capoeira desempenha na geopolítica cultural global. Como destacou o Mestre Guiné, a Capoeira não é uma luta de agressão, mas um escudo de proteção ancestral.

Ao longo do século XX e XXI, enquanto diversas tradições de terreiro sofriam perseguição, apagamento e intolerância, a Capoeira se expandiu para mais de 170 países. Por onde ela passou, não viajou sozinha: levou no seu bojo e salvaguardou manifestações fundamentais como:

  • O Maculelê: A preservação do ritmo, do bastão e da memória dos guerreiros.

  • A Puxada de Rede: O respeito aos ciclos da natureza e o trabalho comunitário.

  • O Samba de Roda: A ancestralidade baiana, a cantiga e a alegria como resistência.

Onde há uma roda de Capoeira no mundo — seja em Tóquio, Paris ou Nova York —, a matriz africana está viva, protegida e se defendendo com altivez.

2. A Força Pedagógica e o Combate ao Racismo na Educação Infantil

Outro ponto de forte impacto na fala do Mestre Guiné na Assembleia Legislativa foi o combate prático ao racismo estrutural. A Capoeira é, hoje, a maior ferramenta de letramento racial na Educação Infantil.

Ao introduzir milhões de crianças brasileiras e estrangeiras à prática da Capoeira nas escolas, o preconceito é desconstruído na raiz:

  • Inversão de Narrativas: Zumbi dos Palmares, Dandara, Mestre Bimba e Mestre Pastinha passam a ser reconhecidos como heróis da história.

  • Vivência Afetiva: A criança aprende a amar o som do berimbau, o toque do atabaque e o ritmo do pandeiro, naturalizando a beleza da cultura negra desde os primeiros anos de vida.

3. Do Terreiro à Igreja Pentecostal: A Maior Manifestação Popular do Brasil

Diante dos parlamentares e da imprensa, o Mestre Guiné reforçou a incrível capacidade democrática e agregadora da nossa arte. A Capoeira é a maior manifestação da cultura popular brasileira no planeta porque não impõe filtros: ela acolhe todos os gêneros, idades, visões políticas e crenças religiosas.

A entrevista destacou a beleza desse fenômeno: a Capoeira consegue ser praticada e ter suas rodas formadas tanto no chão sagrado dos terreiros de Candomblé e Umbanda quanto no espaço de igrejas pentecostais, associações de bairro e universidades.

Na roda, o berimbau nivelar a todos. O jogo ensina que a ancestralidade africana é um patrimônio de toda a humanidade.

O Recado da ALMG: Políticas Públicas para o Ponto de Cultura

Ao levar essa mensagem para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o Mestre Guiné não fez apenas uma aula de história — fez uma cobrança política direta.

Espaços como o Ponto de Cultura Educando Capoeira e o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, no Bairro Santo André em Belo Horizonte, realizam diariamente um trabalho de transformação social, letramento e acolhimento que o Estado muitas vezes não alcança.

Reconhecer a Capoeira como o braço armado e a defesa da matriz africana é garantir que os mestres, as mestras e os terreiros tenham orçamento, espaço e respeito institucional para continuar mantendo essa chama acesa.

Assista, comente e compartilhe!

Acompanhe o vídeo completo da entrevista do Mestre Guiné na ALMG em nossas redes sociais e deixe sua opinião: Como a Capoeira transformou a sua visão sobre a cultura afro-brasileira?


 

Do Tambor ao Ritual: Mestre Guine pesquisa o Tambor de Mina e o Tambor de Crioula no Maranhao 

Por Mestre Guine





No Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — a nossa Casa do Pai Mateus —, a memória, a fé e o respeito aos saberes de matriz africana são as vigas mestras que sustentam a nossa caminhada secular. Fundado em 1898 e ancorado no Bairro Santo André, nosso espaço sempre foi um ponto de resistência, acolhimento e preservação dos ritos que nos conectam aos ancestrais.

Para nós, a Capoeira e as manifestações de terreiro compartilham o mesmo cordão umbilical. Por isso, a pesquisa realizada pelo nosso líder e mestre, Mestre Guiné, no Maranhão ao longo de 2024, não foi apenas uma viagem de estudos: foi um reencontro com a nossa própria essência e com os fundamentos das Casas de Axé e de Tambor que mantêm viva a chama da nossa ancestralidade.

1. O Tambor de Crioula e a Força do Nosso Batuque

Onde há tambor, há presença ancestral. Na vivência do Tambor de Crioula em São Luís, Mestre Guiné testemunhou o mesmo fundamento que rege o nosso terreiro: a circularidade, a reverência e a força do toque.

  • A Roda como Espaço Sagrado: Assim como na nossa casa e na roda de Capoeira, o Tambor de Crioula não é mera apresentação, mas um ritual de comunhão. A pungada (umbigada) e o diálogo corporal entre a dançadeira e o couro do tambor traduzem a mesma energia de troca que sentimos nos nossos trabalhos e no jogo de Capoeira.

  • A Afinação Rítmica e o Axé: O som dos tambores no Maranhão conversa diretamente com o ritmo que movimenta os nossos corpos e atabaques em Belo Horizonte. É o ritmo que chama, sustenta e conduz.

2. Casa das Minas: O Diálogo com as Matriarcas e a Memória Jeje

A visita à Casa das Minas (Querebentantan de Zomadonu) fortalece uma das nossas maiores convicções: o respeito absoluto à liderança feminina e aos mais velhos. Nossa história em Belo Horizonte é profundamente marcada pela força e pela sabedoria de matriarcas como a inesquecível Mestra Mãe Ieda, e encontrar na Casa das Minas a preservação intacta da tradição Jeje reforçou o compromisso da nossa instituição com a memória viva na Casa das Minas houve um dialogo muito positivo sobre as trocas culturais que envolvem as 2 Casas e tambem um dfialogo importante  

O Encontro no Terreiro e a Escuta do Sagrado

Durante a imersão na Casa das Minas, o diálogo do Mestre Guiné com as guardiãs da casa não ocorreu no formato de uma entrevista formal ou acadêmica, mas através da pedagogia da escuta e do terreiro. Em conversas com as vodunsis e zeladoras, o Mestre trocou vivências sobre como a preservação do culto aos Voduns (especialmente a família de Badé, Zomadonu e Averequete) se manteve firme por séculos mesmo diante de todas as pressões externas.

Nesse diálogo, destacaram-se pontos centrais para a nossa prática em Minas Gerais:

  • A Oralidade Absoluta: Na Casa das Minas, o fundamento não é escrito em livros; ele vive no corpo, na cantiga e na memória dos mais velhos. O diálogo com as matriarcas reafirmou que o verdadeiro aprendizado da Capoeira e do Candomblé exige vivência, tempo e presença.

  • O Silêncio e a Disciplina como Fundamento: As guardiãs enfatizaram a importância do silêncio reverente. Para a nossa comunidade no Bairro Santo André, essa lição se traduz no respeito à hierarquia do terreiro e na compreensão de que nem tudo no jogo ou no rito é para ser exibido — o segredo e o axé caminham juntos.

  • A Força da Matriarca: Ver a liderança feminina conduzir a resistência secular daquele espaço renova a nossa responsabilidade em honrar o legado das nossas próprias mães e mestras, mantendo o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças como uma fortaleza da fé afromineira.

3. Casa Fanti Ashanti: A Ciência dos Toques de Tambor e a Diversidade de Ritos

A imersão na Casa Fanti Ashanti, fundação e legado de Pai Euclides (Talabyan), nos ensina sobre a convivência harmônica e rigorosa entre diferentes nações e ritos. Para o nosso Centro, que acolhe a Capoeira, a assistência comunitária e as práticas de terreiro, essa riqueza rítmica é um espelho fundamental.

A Polirritmia e os Sotaques do Tambor

O foco principal da pesquisa do Mestre Guiné na Fanti Ashanti esteve no estudo detalhado da bateria e dos toques de tambor, onde a casa demonstra uma maestria única ao cruzar o Tambor de Mina, o Candomblé Ketu/Nagô e os ritos Ashanti.

  • O Toque do Tambor de Mina (Mina-Jeje e Mina-Nagô): Ao contrário das baterias de Candomblé do sudeste que utilizam prioritariamente os aguidavis (varinhas), na tradição de Mina estudada na Fanti Ashanti, o toque das mãos diretas no couro dos tambores produz uma vibração grave, profunda e prolongada. Mestre Guiné mapeou como essa conversação entre o (tambor grave) e os tambores menores conduz o transe e a movimentação dos corpos no salão.

  • Sincronia entre Cadência e Movimento Corporal: A pesquisa observou como cada toque possui uma "chamada" própria que altera instantaneamente a resposta corporal dos praticantes. Esse dinamismo rítmico dialoga diretamente com a bateria da Capoeira: assim como o berimbau gunga comanda o jogo e altera a cadência dos capoeiristas (do jogo baixo de Angola à expansão da Regional), os toques da Fanti Ashanti determinam o ritmo da energia e da movimentação do rito.

  • O Atabaque como Arquivo de Memória: Para Pai Euclides e os herdeiros da Fanti Ashanti, o toque do tambor não é mero acompanhamento musical, mas uma linguagem litúrgica complexa. Aprender o toque correto é aprender a história, a geografia e a ciência de um povo.

A Nossa Missão: Manter o Elo Vivo

O Centro Espírita Nossa Senhora das Graças entende que a Capoeira, o Tambor de Crioula e as Casas de Mina e Candomblé são galhos da mesma árvore ancestral. A pesquisa de 2024 do Mestre Guiné reafirma o nosso papel como Ponto de Cultura e terreiro centenário: o de cruzar caminhos, honrar quem veio antes e levar essa sabedoria para as futuras gerações no Bairro Santo André e em toda Belo Horizonte.

A bênção dos nossos mais velhos e a força dos nossos tambores continuam a guiar cada passo da nossa caminhada.

sábado, 25 de julho de 2026


Do Terreiro para a Universidade: Quando a Dança da Umbanda Ocupa a UEMG

Por Mestre Guiné


Quando a nossa tradição pisa no chão da academia, quem ganha não é apenas a universidade — é a memória viva do nosso povo e toda a ancestralidade que caminhou até aqui para que hoje pudéssemos ter voz.

Recentemente, tive a honra de estar na Faculdade de Dança da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), ao lado de Mãe Regina, para ministrar uma aula especial de Dança da Umbanda Tradicional. Falando em nome do nosso Ponto de Cultura Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, levamos para os alunos universitários muito mais do que passos ou contagens de ritmo: levamos o fundamento, o axé e a história viva dos nossos territórios da Pedreira Prado Lopes e do bairro Santo André.

O Corpo que Reza, Gingando e Dançando

Na Umbanda Tradicional, assim como na Capoeira, o corpo não se movimenta por acaso. Cada pisar no chão, cada giro, cada curvatura de tronco e cada gesto dos braços conversa diretamente com as forças da natureza, com os orixás e com os nossos guias.

Nessa vivência na UEMG, meu papel e o de Mãe Regina foi convidar os estudantes de dança a desacelerarem a mente e sentirem o movimento a partir do coração e do atabaque. Mostramos que o ritmo orienta o passo, mas é a intenção sagrada e o respeito à ancestralidade que guiam a dança.

Foi emocionante ver a sala cheia de jovens se conectando com uma linguagem corporal que é pura resistência do nosso povo preto e periférico.

Descolonizar o Conhecimento: O Lugar do Mestre de Saberes

Por muitos anos, a universidade estudou a nossa cultura, a nossa fé e a nossa dança como objetos distantes, trancados em livros ou observados de fora. Estar ali, como Mestre e ao lado de Mãe Regina, ocupa um lugar de reparação e de descolonização real do conhecimento.

Lugar de Mestre e Mestra dos Saberes é também na docência universitária. Durante a aula, buscamos transmitir três pilares que regem a minha caminhada e a formação no projeto Educando Capoeira:

  1. A dança de terreiro é ciência corporal: Existe um domínio de ritmo, equilíbrio, consciência espacial e presença física absurdamente complexo na nossa tradição.

  2. O gesto carrega memória: Cada movimento que ensinamos preserva a história das nossas avós, dos nossos mais velhos e das comunidades que mantiveram essas chaves acesas contra todo o preconceito.

  3. Fundamento e Respeito: Não se dança a Umbanda ou se joga Capoeira de qualquer jeito. É preciso saudar quem veio antes e respeitar o chão onde se pisa.

Da Raiz para o Mundo

A Capoeira e a Umbanda bebem da mesma fonte de axé, comunidade e resistência. Ver a Dança Tradicional ser vivenciada e respeitada por futuros profissionais da dança dentro da UEMG me dá a certeza de que as sementes plantadas pelas nossas matriarcas — como as minhas avós, Vó Alzira e Vó Dona Alice — continuam gerando frutos fortes.

Agradeço a cada aluno e professora da UEMG pela escuta atenta e pelo respeito ao nosso Ponto de Cultura. Seguiremos levando a nossa sabedoria do quintal para a roda, do terreiro para os palcos, e da comunidade para a universidade.

Salve a Umbanda Tradicional! Salve a Dança! Salve a nossa ancestralidade!

O que você achou dessa vivência entre o nosso Ponto de Cultura e a UEMG? Deixe seu comentário aqui no blog e compartilhe para que a nossa voz chegue ainda mais longe!


 

 

Raízes de Axé e Cuidado: O Dia da Mulher Negra e Caribenha e o Legado Ancestral no Educando Capoeira


                                                      

No dia 25 de julho, celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (e o Dia Nacional de Tereza de Benguela). Na Capoeira e na cultura popular brasileira, aprender sobre o passado é o primeiro passo para gingar com sabedoria no presente. Essa data não é apenas um marco no calendário de lutas; é um lembrete vivo de que a força da mulher negra é o alicerce que sustentou e continua a sustentar as nossas comunidades.

Falar desta data é honrar as que vieram antes de nós, garantindo a preservação dos saberes tradicionais, da fé e da cura. E na história do projeto Educando Capoeira, essa potência tem nome, sobrenome e laço de sangue: Vó Alzira Maria de Oliveira e Vó Dona Alice, avós do Mestre Guiné, que constituem a verdadeira base dos ensinamentos, da ética e da formação humana que orientam o nosso trabalho até hoje.

Vó Alzira: Setenta Anos Iluminando o Caiçara a Partir do Seu Quintal

Quem conhece a história do bairro Caiçara sabe que ali existiu um verdadeiro farol de fé e cura. Durante 70 anos, Dona Alzira Maria de Oliveira — a amada Vó Alzira — fez do seu quintal um ponto de encontro entre o sagrado e a comunidade.

Benzedeira de mão cheia, Vó Alzira não benzia apenas com ervas, rezas e ramos; benzia com o olhar, com a escuta atenta e com a sabedoria ancestral das parteiras e curandeiras negras. No seu quintal, a dor do vizinho virava alívio, a incerteza virava esperança e o acolhimento era a regra principal. Por sete décadas, ela iluminou o Caiçara, ensinando ao seu neto, Mestre Guiné, que o conhecimento tradicional e o cuidado com o próximo são ferramentas poderosas de transformação.

Vó Dona Alice: Liderança, Fé e Resistência na Pedreira e no Santo André

Outro pilar fundamental na construção desta memória de afeto e liderança foi Vó Dona Alice. À frente do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, a sua atuação ultrapassou as paredes do templo e entranhou-se na vida das comunidades da Pedreira Prado Lopes e do bairro Santo André.

Liderança comunitária nata, Vó Dona Alice entendia a espiritualidade aliada à ação social e ao amparo material dos seus. Em territórios marcados por desafios diários, a sua presença era sinónimo de firmeza, caridade e organização. Ela transmitiu valores essenciais de liderança e serviço comunitário que hoje formam a espinha dorsal da pedagogia do Mestre Guiné na Capoeira.

O Axé e a Base da Nossa Formação

Na Capoeira, cantamos constantemente sobre os mestres do passado, mas precisamos de olhar com o mesmo respeito e reverência para as mães, avós, benzedeiras e lideranças que moldaram a nossa conduta.

A trajetória do Mestre Guiné e os valores transmitidos no projeto Educando Capoeira não nasceram por acaso: foram forjados no exemplo diário destas duas matriarcas. A reza no quintal do Caiçara e a liderança comunitária na Pedreira e no Santo André são as raízes que sustentam a árvore da nossa capoeira.

Neste Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebramos a memória de Vó Alzira e Vó Dona Alice. Que a sua sabedoria continue a guiar os nossos passos, dentro e fora da roda!

Salve a força das mulheres negras! Salve Vó Alzira! Salve Vó Dona Alice!

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A Vitória da Tradição Ancestral: A Sanção da Lei nº 25.900/2026 e o Legado do Projeto Educando Capoeira na UEMG

Por Mestre Guiné

 

O ano de 2026 fica marcado na história da cultura e da educação de Minas Gerais como o momento em que a resistência ancestral virou direito garantido em lei. Com a promulgação e sanção da Lei Estadual nº 25.900/2026 pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) — fruto do Projeto de Lei nº 1.546/2023 —, a Capoeira deixa definitivo o papel de atividade secundária para se consolidar como conteúdo e ferramenta pedagógica oficial na rede estadual de ensino.

Esta conquista não é apenas uma vitória do texto legislativo. Trata-se de um ato de reparação histórica e da validação de experiências pedagógicas construídas no chão da escola pública e no ambiente universitário ao longo de décadas.

O Notório Saber em Ação: Da Comunidade à Universidade

A grande virada de chave assegurada pela Lei nº 25.900/2026 e nos debates da ALMG é o reconhecimento do Notório Saber dos Mestres e Mestras de Capoeira. A sabedoria transmitida pela tradição oral, pelo toque dos instrumentos e pela vivência comunitária possui valor científico e pedagógico próprio.

Exemplo concreto desse diálogo entre a tradição e o ensino superior é a atuação do Mestre Guiné na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Ministrando aulas, oficinas de jogos africanos e palestras tanto na Faculdade de Educação (FaE) em Belo Horizonte quanto no campus de Ibirité, o Mestre levou para a formação dos futuros pedagogos e educadores a vivência prática da ancestralidade, mostrando que o conhecimento tradicional dialoga de igual para igual com a academia.

O Projeto Educando Capoeira: Quinze Edições de Inovação Pedagógica

Antes mesmo de a lei estadual virar realidade, o Projeto Educando Capoeira, idealizado e liderado pelo Mestre Guiné, já desenhava o modelo prático do que a legislação hoje propõe. Com 15 edições consolidadas, o projeto atuou diretamente em escolas públicas, creches e territórios periféricos da Região Metropolitana de BH, unindo:

  • Prática Psicomotora e Ludicidade: Atividades adaptadas desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental, utilizando os movimentos da Capoeira e os jogos de matriz africana para o desenvolvimento sensório-motor de crianças.

  • Formação Cidadã e Transversal: A Roda como ambiente de escuta, respeito, valorização da memória ancestral e combate ao racismo estrutural.

  • Formação de Educadores: Diálogo direto com o corpo docente e os futuros professores da UEMG, multiplicando metodologias de ensino fundamentadas na Lei Federal 10.639/03.

O Impacto da Nova Lei na Rede Estadual de Ensino

A consolidação da Lei nº 25.900/2026 encontra no acúmulo de projetos como o Educando Capoeira o mapa para a sua execução. Ao integrar a Capoeira às diretrizes pedagógicas das escolas estaduais, os estudantes ganham em múltiplos eixos:

  • Desenvolvimento Integral: Estímulo simultâneo ao equilíbrio, à consciência corporal, ao ritmo, à expressão poética e à saúde mental.

  • Valores Socioemocionais: A vivência na roda ensina o respeito aos mais velhos, o autocontrole, a empatia e a resolução pacífica de conflitos.

  • Valorização da Identidade: A criança e o jovem periférico passam a enxergar sua própria cultura e história valorizadas dentro do espaço escolar.

Do Texto da Lei à Prática: Os Desafios do Território

A aprovação da lei em 2026 foi uma vitória fruto da mobilização coletiva, das redes de capoeiristas e do apoio parlamento mineiro. O desafio do momento presente é garantir sua efetiva implementação territorial.

Para que a experiência do Educando Capoeira e das aulas na UEMG se multiplique em cada município e escola do estado, é indispensável:

  1. Garantia de Fomento e Orçamento: Destinação de recursos específicos para a contratação e remuneração justa dos Mestres e Mestras de Tradição.

  2. Inclusão nos Projetos Político-Pedagógicos (PPPs): Inserção da Capoeira no planejamento anual das escolas estaduais, garantindo sua continuidade ao longo de todo o ano letivo.

  3. Parcerias Institucionais: Fortalecimento da ponte entre universidades públicas (como a UEMG), secretarias de educação e os coletivos de Capoeira para a formação continuada de educadores.

Conclusão

A Lei nº 25.900/2026 e o histórico do Projeto Educando Capoeira provam que a gestão pública, a universidade e a sabedoria ancestral podem caminhar juntas. Ao abrir as portas das escolas e das faculdades para o berimbau e para a autoridade pedagógica do Mestre, Minas Gerais reafirma seu compromisso com uma educação pública libertadora, inclusiva e profundamente conectada com as suas raízes.



sexta-feira, 24 de julho de 2026

 

Festival Miudinhos: Como a Capoeira e a Tradição Ancestral Transformaram Mais de 100 Crianças na Educação Infantil

Por Mestre Guiné

Quando pensamos em Educação Infantil, muitas vezes a imaginação se limita a salas de aula, brinquedos de plástico e papéis para colorir. Mas o que acontece quando a tradição oral, o toque do berimbau, a ginga e a força dos Saberes Tradicionais entram no chão da escola?

Ao longo de 20 anos como Mestre de Capoeira e educador da primeira infância, vivi na prática a resposta para essa pergunta. Um dos capítulos mais marcantes dessa trajetória aconteceu na Creche Jardim Felicidade, em Belo Horizonte, onde desenvolvi um trabalho contínuo com mais de 100 crianças, com idades entre 2 e 6 anos.

O ponto alto de todo esse processo? O inesquecível Festival Miudinhos.

Muito Além de um Evento: Um Trabalho de Um Ano Inteiro

É comum olhar para apresentações escolares como momentos isolados do calendário. O Festival Miudinhos, no entanto, não era uma "festa de fim de ano" improvisada. Ele era a culminância de um processo pedagógico contínuo, vivenciado semana a semana, roda a roda, fortalecendo a rede comunitária e o direito à cultura.

Trabalhar a Capoeira com a primeira infância exige olhar para a criança em sua totalidade. Cada faixa etária tem o seu tempo, o seu ritmo e a sua descoberta, dialogando diretamente com os campos de experiência e direitos de aprendizagem da BNCC (Base Nacional Comum Curricular):

  • Para os miudinhos de 2 a 3 anos (Corpo, gestos e movimentos): A capoeira é puro estímulo sensório-motor, exploração espacial e ludicidade. É a descoberta dos sons dos instrumentos, a palma no ritmo, o pulo do sapo, a ginga do caranguejo e o equilíbrio do corpo.

  • Para as crianças de 4 a 6 anos (O eu, o outro e o nós): A roda ganha novos contornos. Entram os movimentos fundamentais, a noção de espaço e coordenação, o canto em resposta e, acima de tudo, o aprendizado sobre o respeito ao colega, a escuta atenta e a convivência comunitária.

A Capoeira entrava na creche não como uma simples "aula de educação física", mas como uma tecnologia ancestral de educação integral que ensina identidade, corporiedade, autonomia e afeto.

A Força da Lei 10.639/03 na Primeira Infância

Muitas vezes, a implementação da Lei 10.639/03 (que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas) fica restrita a livros ou datas comemorativas no Ensino Fundamental. O trabalho na Creche Jardim Felicidade provou que a cultura afro-brasileira se vivencia na prática desde os primeiros anos de vida.

Ao colocar a sabedoria dos Mestres de Tradição no espaço escolar, garantimos às crianças o direito de crescerem reconhecendo a beleza, a força e a riqueza da matriz africana e brasileira através do próprio corpo, da música e da oralidade.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

🪘 Neves em Movimento: Capoeira, Ancestralidade e Acesso às Políticas Públicas no Território

 


No dia 05 de julho, o município de Ribeirão das Neves viveu um marco histórico na celebração e no fortalecimento da cultura popular. O evento Ribeirão das Neves em Movimento da Capoeira, idealizado pelo Mestre Macarrão e realizado em conjunto com a Comissão de Mestres e Grupos de Neves, reuniu mais de 20 grupos de capoeira em uma grande jornada de integração, aprendizado prático e afirmação de direitos.

🤸‍♂️ Aulas Práticas e Vivências: Tradição no Pé do Berimbau

A transmissão oral e prática do saber ficou a cargo de grandes referências do setor:

  • Mestra Lili: Trouxe a força e a ancestralidade feminina para o centro do aprendizado.

  • Mestrando Lagartixa: Comandou movimentações focadas na técnica, agilidade e dinâmica de jogo.

  • Mestre Dino: Conduziu momentos de fundamentos tradicionais, reforçando a disciplina e o respeito às raízes.

  • Instrutor Coyote: Contribuiu com metodologias dinâmicas de treino, integrando todos os alunos.

🏛️ Palestras e Diálogo Político

O encontro contou com momentos decisivos de formação sobre direitos e gestão cultural:

  • Mestre Guiné: Apresentou caminhos para a desburocratização dos editais de fomento (como FEC e PNAB) e defendeu a Capoeira como tecnologia social, patrimônio imaterial e vetor socioeducativo nas periferias.

  • Deputada Andréia de Jesus: Pautou a urgência de incluir a periferia e os povos tradicionais no orçamento público, destacando a articulação de emendas e o combate ao racismo estrutural através da cultura.

🤝 União e Fortalecimento do Território

A iniciativa do Mestre Macarrão e da Comissão de Mestres de Ribeirão das Neves deixa um legado claro: quando a comunidade se organiza e pauta os seus direitos junto às lideranças, o berimbau ecoa com ainda mais força nos espaços de decisão.

A Grandeza do Mundial FICAG 2026 sob a Liderança do Grande Mestre Museu em BH e no Mundo !!!

 


Belo Horizonte viveu dias inesquecíveis que entrarão para a história da capoeira mundial. O auditório do tradicional Colégio Tiradentes transformou-se no grande palco do Mundial de Capoeira da FICAG (Fundação Internacional Capoeira Artes das Gerais), um evento monumental idealizado e organizado pelo Mestre Museu — figura de destaque e referência da nossa capoeiragem belo-horizontina.

Diante de um público vibrante de cerca de 1.000 pessoas, o evento demonstrou toda a força, a disciplina e a beleza socioeducativa do trabalho que o Mestre Museu constrói e expande para o mundo.

🪘 Cursos com Grandes Nomes da Capoeira Mundial e Formatura Histórica

O Mundial foi uma verdadeira imersão na essência e nos fundamentos da arte. Durante a programação, os participantes tiveram a oportunidade de vivenciar cursos e oficinas ministrados por renomados Mestres de todo o Brasil e do exterior, promovendo um intercâmbio cultural e técnico inestimável.

Um dos momentos mais marcantes e emocionantes do encontro foi a Formatura de Mestres e Formandos:

  • Reconhecimento da Trajetória: A entrega de novas graduações selou anos de dedicação, disciplina e respeito às raízes da Capoeira.

  • Renovação da Liderança: Ver novos formandos e mestres assumindo a responsabilidade de dar continuidade aos fundamentos ancestrais emociona e garante a preservação do nosso patrimônio imaterial.

🏆 Campeonato Mundial: Técnica, Respeito e Superação

A competição foi um espetáculo à parte na arena do Colégio Tiradentes. As disputas das categorias Masculina e Feminina reuniram atletas e capoeiristas de altíssimo nível:

  • Equidade e Alto Rendimento: O campeonato destacou a força e a plasticidade do jogo, com jogos disputados, mas marcados pela lealdade e pela camaradagem tradicional das rodas.

  • Vitrine para Jovens Talentos: Para os alunos e projetos socioculturais —, ver os maiores nomes da modalidade em ação serve de combustível e inspiração para as futuras gerações.

🏛️ O Impacto e o Legado para Belo Horizonte

Reunir cerca de mil pessoas em um espaço como o auditório do Colégio Tiradentes reafirma que a Capoeira, quando conduzida com profissionalismo e propósito, movimenta a economia criativa, o turismo cultural e a inclusão social.

O Mestre Museu e toda a família FICAG estão de parabéns por organizarem um evento impecável, que colocou Belo Horizonte no topo do cenário mundial e mostrou o real valor da nossa cultura viva.

A TV Capoeira Videos esteve presente representada pelo Mestre Guine com a Live das Formaturas momento emocionante e de grande impacto nas Redes . 

Fomento e Salvaguarda: 1ª Reunião do Conselho de Capoeira de Ibirité

 

Fomento e Salvaguarda: 1ª Reunião do Conselho de Capoeira de Ibirité



A Primeira Reunião do Conselho de Capoeira de Ibirité marcou um passo histórico na articulação entre as lideranças tradicionais e as políticas públicas municipais, definindo estratégias para a salvaguarda, a Rede Cultura Viva e a captação de recursos para o setor.

O encontro reuniu grandes referências como Mestre Edvaldo, Mestra Sereia, Mestre Pacote, Contramestre Macaquinho e Mestre Guiné (gestor do Ponto de Cultura Centro Espírita Nossa Senhora das Graças), além de diversas outras lideranças e representantes da comunidade, unindo forças para estruturar a atuação da Capoeira no município.

🏛️ Diretrizes Estratégicas: Captação, Cultura Viva e Políticas Públicas

  1. Captação de Recursos e Editais Públicos:

    • Orientações práticas para acesso ao Fundo Estadual de Cultura (FEC), recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e leis de fomento.

    • Capacitação dos grupos locais para a elaboração de projetos desburocratizados e captação direta.

  2. Fortalecimento da Rede Cultura Viva:

    • Consolidação da Capoeira como patrimônio imaterial e vetor socioeducativo na cidade.

    • Integração dos coletivos à rede nacional e estadual de Pontos de Cultura.

  3. Mapeamento e Diagnóstico Territorial:

    • Levantamento detalhado das academias, projetos socioculturais e mestres em atividade nas diferentes regiões e periferias de Ibirité.

  4. Inserção Socioeducativa e Letramento Racial:

    • Estratégias para ampliar a presença da Capoeira nas escolas e centros comunitários como ferramenta de inclusão e combate ao racismo estrutural.

  5. Organização do Calendário Oficial:

    • Alinhamento de datas e eventos para garantir visibilidade e apoio institucional do poder público municipal às rodas e encontros ao longo do ano.

💬 Faça parte dessa construção!

Como a sua academia ou grupo tem se preparado para acessar os editais de fomento na cidade? Deixe seu comentário e compartilhe este registro!

Movimento Ancestral – Ofício do Mestre: Tradição, Política Pública e Roda Viva no CESU Industrial


A salvaguarda da cultura popular e a valorização do patrimônio imaterial ganharam mais um capítulo fundamental em Minas Gerais. O CESU Industrial foi palco do encontro "Movimento Ancestral – Ofício do Mestre", uma iniciativa que reuniu debate institucional, vivência comunitária e a força da tradição viva em um único espaço.

Gerido pela Move Cultura e viabilizado por meio de emenda parlamentar da deputada estadual Macaé Evaristo, o evento destacou-se pela articulação entre a tradição oral e a gestão de políticas públicas culturais no estado.

🏛️ Política Pública e Capoeira: O Ofício do Mestre em Pauta

A abertura do encontro contou com a palestra ministrada por Mestre Guiné, supervisor técnico do programa, ativista cultural e gestor do Ponto de Cultura Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Com vasta bagagem na coordenação de projetos socioculturais e na comunicação comunitária, Mestre Guiné abordou a urgência do fortalecimento da Capoeira no âmbito das políticas públicas institucionais.

Durante sua exposição, foram debatidos pontos centrais para a categoria:

  • Fomento e Sustentabilidade: A necessidade de simplificação no acesso aos mecanismos estaduais de incentivo, garantindo repasse direto e valorização aos verdadeiros detentores do saber tradicional.

  • Salvaguarda do Ofício: O reconhecimento da Capoeira não apenas como esporte, mas como tecnologia social, patrimônio cultural imaterial e vetor de economia criativa.

  • Educação e Cidadania: O papel dos mestres e dos projetos socioculturais como instrumentos de combate ao racismo estrutural, letramento racial e inclusão nas periferias.

🪘 A Força do Samba de Roda com Mametu Nebanvula

A energia da celebração ancestral tomou conta do espaço com a vivência de Samba de Roda, conduzida por Mametu Nebanvula (Mestra Luzelena de Fátima), liderança do Ponto de Cultura Samba do Lagedo e referência do Coletivo Manzo Ngunzo Kiamase.

A oficina proporcionou uma imersão nos fundamentos do ritmo, dos cantos e da dança comunitária:

  • Conexão com a Matriz Africana: A vivência resgatou os toques ancestrais e a musicalidade que entrelaçam a memória dos terreiros, o Congado, o Candomblé e a Capoeira em Minas Gerais.

  • Transmissão Oral de Saberes: A presença vibrante da Mestra reafirmou o papel das guardiãs da memória na preservação das culturas tradicionais, conectando os participantes às raízes profundas da Afromineiridade.

🤸‍♂️ A Roda Final: Condução e Celebração no Pé do Berimbau

Para coroar a jornada de aprendizado e troca, a grande Roda de Capoeira final foi conduzida pelo Mestrando Camaleão (ABADÁ-Capoeira).

Com energia, fundamento e respeito às diferentes escolas, a roda sob a condução do Mestrando Camaleão colocou em prática a integração de mestres, capoeiristas de diversas graduações e a comunidade presente, encerrando o evento em um verdadeiro ritual de celebração e união da arte do berimbau.

🤝 Parceria Estratégica e Legado Cultural

A realização do Movimento Ancestral – Ofício do Mestre reflete a relevância do trabalho em rede:

  1. Gestão Cultural Eficiente: A Move Cultura atuou na viabilização operacional e estrutural do projeto, garantindo acessibilidade e execução de excelência.

  2. Investimento Público Consciente: O aporte via emenda parlamentar da deputada Macaé Evaristo reafirma o compromisso com a pauta da igualdade racial, da valorização dos mestres populares e do fortalecimento dos territórios periféricos.

Iniciativas como essa demonstram que a preservação do patrimônio imaterial se faz com diálogo político, ocupação dos espaços públicos e corpo em movimento.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Tecnologia, Tradição e Ancestralidade: Projeto "Capoeira Drone" Celebra 128 Anos do Ponto de Cultura Centro e Nossa Senhora das Graças

 


Tecnologia, Tradição e Ancestralidade: Projeto "Capoeira Drone" Celebra 128 Anos do Ponto de Cultura Centro e Nossa Senhora das Graças

A tecnologia e a cultura popular tradicional voltam a se dar as mãos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em uma ação inédita que une memória cultural e inovação audiovisual, o Ponto de Cultura Centro e Nossa Senhora das Graças, em parceria com o Ponto de Cultura Capoeira Vídeos, lança oficialmente o Projeto Capoeira Drone.

A iniciativa marca as comemorações dos 128 anos de dedicação do Ponto de Cultura Centro e Nossa Senhora das Graças à comunidade e à salvaguarda das tradições locais.

O Olhar do Alto Para Fortalecer Nossas Raízes

O projeto vai oferecer 13 coberturas de drone 100% gratuitas direcionadas a Pontos de Cultura de Capoeira e expressões da Cultura Afro-Popular atuantes na RMBH.

O objetivo principal é registrar a dinâmica, a geometria e a energia das rodas, festejos e celebrações a partir de uma perspectiva aérea profissional. Além do impacto estético, as filmagens servirão como acervo de memória e material de alta qualidade para portfólios, divulgação digital e prestação de contas de projetos culturais.

Inclusão Tecnológica com Reconhecimento Internacional

A parceria com o Ponto de Cultura Capoeira Vídeos traz para o projeto uma bagagem sólida de inovação e impacto social. O coletivo foi vencedor do Prêmio do Projeto Revoada, concedido pela ONU em 2022, justamente pelo trabalho de excelência na inserção tecnológica dentro da comunidade afro.

Unir a trajetória de 128 anos de resistência comunitária do Centro e Nossa Senhora das Graças com o know-how tecnológico do Capoeira Vídeos reafirma que a tradição afro-brasileira também é espaço de vanguarda, audiovisual e transformação digital.

Quem Pode Participar e Como Funciona?

  • O que é: 13 coberturas audiovisuais aéreas (drone) gratuitas.

  • Público-alvo: Coletivos, terreiros, grupos de Capoeira e Pontos de Cultura Afro-Popular.

  • Onde: Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

  • Custo: Totalmente gratuito.

  • Vagas: Apenas 13 contemplados.

As vagas são limitadas para garantir a entrega técnica e a qualidade da pós-produção de cada uma das coberturas.

Mande mensagem no wattsapp e agende a sua cobertura 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mestra Mae Ieda

Resumo: Este artigo analisa a convergência entre a agenda política do Julho das Pretas e a preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam), matriarca e benzedeira do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. O estudo aborda a liderança religiosa e comunitária das mulheres negras como uma tecnologia ancestral de cura, acolhimento social e salvaguarda do patrimônio cultural afro-mineiro, demonstrando como a transmissão oral e a pedagogia de terreiro sustentam as lutas contemporâneas antirracistas no Brasil.

Palavras-chave: Mãe Ieda. Julho das Pretas. Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Matriarcado. Ancestralidade. Patrimônio Imaterial.

1. Introdução

O mês de julho consolida-se no calendário nacional como um período central para a visibilidade e a mobilização política das mulheres negras no Brasil. No âmbito das celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela (25 de julho), o movimento Julho das Pretas pauta o combate ao racismo estrutural, ao machismo e às desigualdades sociais, promovendo o protagonismo e a busca pelo bem-viver.

Nesse cenário de reafirmação de direitos, a homenagem à memória de Mãe Ieda (In Memoriam) emerge como um compromisso com a história da cultura afro-brasileira em Minas Gerais. Liderança e guardiã do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — instituição centenária que atua como ponto de convergência comunitária e salvaguarda do patrimônio imaterial —, Mãe Ieda personificou a união entre a devoção sagrada, o acolhimento social e a resistência política.

Este artigo analisa a trajetória de Mãe Ieda no contexto do Julho das Pretas, evidenciando como a sabedoria das matriarcas de terreiro fundamenta a continuidade das lutas emancipatórias das mulheres negras contemporâneas.

2. Fundamentação Teórica: O Matriarcado Negro e a Pedagogia do Terreiro

A atuação das lideranças femininas de matriz africana no Brasil dialoga diretamente com os conceitos de ancestralidade, decolonialidade e patrimônio vivo. Conforme destacam os estudos sobre as corporatividades afro-diaspóricas (SIMAS & RUFINO, 2018), o terreiro e os centros de tradição funcionam como polos de resistência cultural e social diante do apagamento histórico promovido pela colonialidade.

"O saber da matriarca não se restringe ao espaço ritualístico; ele constitui uma tecnologia social de preservação da vida, onde a reza, o uso das ervas e o acolhimento funcionam como ferramentas formais de saúde, cidadania e proteção comunitária."

A trajetória de Mãe Ieda insere-se nessa tradição de cuidado integral. Na condição de benzedeira e guardiã de costumes seculares, sua liderança demonstrou que a preservação da memória e a transmissão oral para os mais jovens são pilares indispensáveis para a construção da identidade e do pertencimento étnico-racial.

3. Desenvolvimento: A Tradição em Ato no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças

O Centro Espírita Nossa Senhora das Graças construiu uma história sólida de articulação comunitária e salvaguarda da cultura afro-mineira. Sob a regência de Mãe Ieda, a instituição consolidou sua atuação a partir de eixos fundamentais:

  • Práticas de Cura e Medicina Popular: O exercício do benzedor, o conhecimento das folhas e a escuta acolhedora como recursos de saúde física e espiritual para a população periférica.

  • Acolhimento Comunitário: A transformação do espaço tradicional em um centro de apoio social, garantindo a sustentação de famílias e a promoção da dignidade humana.

  • Salvaguarda das Expressões Tradicionais: O fortalecimento do Ponto de Cultura, incentivando manifestações como a capoeira, as danças tradicionais e a preservação dos ritmos sagrados como estratégias de formação cidadã.

                    MÃE IEDA (IN MEMORIAM)
        (Matriarca, Benzedeira e Guardiã das Tradições)
                             │
                             ▼
            CENTRO ESPÍRITA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS
            (Preservação do Patrimônio e da Memória)
                             │
                             ▼
                     JULHO DAS PRETAS
       (Afirmação Política, Visibilidade e Continuidade)
                             │
            ┌────────────────┴────────────────┐
            ▼                                 ▼
   Acolhimento Comunitário          Fortalecimento da Identidade
   e Justiça Social                 e da Cultura Afro-Mineira

No Julho das Pretas, a exaltação a Mãe Ieda reafirma a premissa de que a marcha e as conquistas do movimento negro atual só são possíveis porque matriarcas pavimentaram o caminho em momentos de adversidade. O reconhecimento de seu legado combate o apagamento histórico e reafirma a relevância das mulheres negras na formação cultural e social do país.

4. Considerações Finais

A preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam) no âmbito do Julho das Pretas representa um ato de justiça histórica e de afirmação dos saberes ancestrais.

A vida e a obra de Mãe Ieda no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças demonstram que a verdadeira liderança se consolida no compromisso diário com a comunidade, com a cultura popular e com a dignidade humana. Seu legado permanece vivo nas práticas de ensino, nas manifestações de rua, na capoeira e na continuidade das ações antirracistas, inspirando novas gerações a manterem acesa a chama da resistência e do bem-viver.

Referências Bibliográficas

  • BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007.

  • MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

  • SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018.

  • WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.