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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Historias do Axe ; Onde o Coração Gira: O Despertar de Mãe Ieda

 

Onde o Coração Gira: O Despertar de Mãe Ieda

Em 1953, o bairro Caiçara era o cenário de um milagre cotidiano. No quintal da Rua Icaraí 315, entre o orvalho nas folhas de Guiné e as mãos de Dona Alzira que curavam as dores de Belo Horizonte, nasceu Ieda. Ela não apenas cresceu naquele solo; ela foi tecida com as rezas de sua mãe. Menina, Ieda não brincava apenas de boneca; ela colaborava com o axé, aprendendo que o amor ao próximo é a cultura mais profunda que um povo pode ter.

Aos 15 anos, Ieda tinha o brilho da descoberta nos olhos. Numa tarde qualquer, enquanto caminhava pelas ruas do bairro que conhecia como a palma da mão, seus passos foram guiados — não por ela, mas por uma força invisível — até a Rua Passa Quatro. Lá, um quartinho humilde exalava um perfume de arruda e fumo de corda que lhe era familiar. Era o Quartinho do Pai Joaquim.

No umbral daquela porta, o destino sorriu. Dona Ana, fiel amiga de sua mãe, a viu e, com um gesto que parecia um abraço, a convidou para entrar. Ieda, ainda jovem, sentiu o coração bater mais forte ao ver a imagem do Sr. Pai Joaquim. Havia ali um silêncio que falava, uma paz que transbordava.

O sábio Preto Velho olhou para os bancos da assistência. Ele não buscava grandes cantores, buscava corações dispostos. "Venham", chamou ele, "venham formar o Coral da Umbanda". Ieda se levantou, sentindo que cada passo em direção àquele coro era um passo em direção a si mesma. Eles começaram a cantar para que a Gira da casa ganhasse força, para que a música limpasse os caminhos.

Ieda abriu a voz. Mas, após vinte minutos de cantoria, a voz já não saía mais da garganta — saía da alma. A luz das velas pareceu dançar num ritmo diferente. O mundo ao seu redor começou a balançar, as paredes do quartinho se tornaram infinitas e a cabeça da jovem Ieda começou a rodar, rodar como se o universo inteiro estivesse girando dentro dela.

Quando o silêncio finalmente se fez e Ieda "acordou", o tempo havia se transformado. Naquele breve transe, o céu e a terra haviam se tocado. Naquele instante, o Grande Preto Velho Pai Tranca Rua das Almas tomou sua mão espiritual. Foi um encontro de almas, um pacto de luz que não se romperia jamais.

Daquele dia em diante, Ieda nunca mais caminhou sozinha. A menina que nasceu no quintal da benzedeira tornou-se a guardiã de um mistério maior. Pai Tranca Rua das Almas a acompanhou com sua bengala de luz e sua sabedoria ancestral até o último segundo de sua vida, honrando cada nota do coral que, um dia, o chamou para a terra.

A voz de Mãe Ieda se calou para o mundo, mas o seu canto continua vivo em cada benção que seus filhos e netos dão, provando que o amor de uma mãe e a força de um guia são cordões que nem

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