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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Projeto Axe de Historias - "O Menino que Comeu a Proteção: A Linhagem de Dona Alzira e Mestre Dunga"

 

Projeto Axe de histórias - "O Menino que Comeu a Proteção: A Linhagem de Dona Alzira e Mestre Dunga"

No final da década de 1980, o número 315 da Rua Icaraí, no bairro Caiçara, em Belo Horizonte, era muito mais que uma casa. Era um território de cura e axé. Ali, o ar era impregnado pelo perfume das ervas sagradas que Mestre Dona Alzira, a grande benzedeira da região, manipulava com sabedoria há mais de 60 anos. Entre um atendimento e outro, ela cuidava de seus netos, Diego e seu irmão, cercando-os de um universo místico que poucas crianças tiveram acesso.

O quintal da Rua Icaraí tinha quarenta metros de mistérios verdes. Por muito tempo, Dona Alzira intrigou-se com o sumiço constante de suas ervas. Ela reclamava com a filha que os cachorros deviam estar comendo a Alfafa e o Guiné, pois as plantas desapareciam misteriosamente.

Até que, em uma manhã de observação silenciosa, Dona Alzira flagrou a verdade: seu neto estava no meio da mata do terreiro, "lambuzado" de Guiné, comendo as folhas com uma alegria radiante. A benzedeira, em vez de brigar, soltou uma gargalhada que selou o destino do menino. Ali, entre as rezas e o cheiro de terra, ele foi batizado pela primeira vez como Guinezinho.

Dona Alzira, que enxergava o valor e o caráter das pessoas, tinha uma grande estima pelo Mestre Dunga (Amadeu). Foi por vontade e confiança dela que os netos foram entregues aos cuidados dele para aprender a arte da Capoeira.

Aos seis anos de idade, a transição aconteceu: do quintal da benzedeira para a roda da Senzala. No momento de receber um apelido, a história das folhas de Guiné devoradas na infância foi contada pelo irmão Diego. A galera da capoeira não perdoou. O diminutivo ficou para trás, e a força da planta sagrada assumiu o comando.

O que nasceu no terreiro da Rua Icaraí 315 ganhou o mundo. Hoje, o nome Mestre Guiné é uma marca de respeito, reconhecida internacionalmente. Mas, em cada berimbau que toca e em cada corpo que fecha, bate o coração daquele menino que, guiado por Dona Alzira e formado pelo Mestre Dunga, descobriu que sua proteção vinha da terra e sua força vinha da raiz.


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