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terça-feira, 21 de julho de 2026

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mãe Ieda (In Memoriam) e o Julho das Pretas: Matriarcado, Memória e Resistência Ancestral

Mestra Mae Ieda

Resumo: Este artigo analisa a convergência entre a agenda política do Julho das Pretas e a preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam), matriarca e benzedeira do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. O estudo aborda a liderança religiosa e comunitária das mulheres negras como uma tecnologia ancestral de cura, acolhimento social e salvaguarda do patrimônio cultural afro-mineiro, demonstrando como a transmissão oral e a pedagogia de terreiro sustentam as lutas contemporâneas antirracistas no Brasil.

Palavras-chave: Mãe Ieda. Julho das Pretas. Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. Matriarcado. Ancestralidade. Patrimônio Imaterial.

1. Introdução

O mês de julho consolida-se no calendário nacional como um período central para a visibilidade e a mobilização política das mulheres negras no Brasil. No âmbito das celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela (25 de julho), o movimento Julho das Pretas pauta o combate ao racismo estrutural, ao machismo e às desigualdades sociais, promovendo o protagonismo e a busca pelo bem-viver.

Nesse cenário de reafirmação de direitos, a homenagem à memória de Mãe Ieda (In Memoriam) emerge como um compromisso com a história da cultura afro-brasileira em Minas Gerais. Liderança e guardiã do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — instituição centenária que atua como ponto de convergência comunitária e salvaguarda do patrimônio imaterial —, Mãe Ieda personificou a união entre a devoção sagrada, o acolhimento social e a resistência política.

Este artigo analisa a trajetória de Mãe Ieda no contexto do Julho das Pretas, evidenciando como a sabedoria das matriarcas de terreiro fundamenta a continuidade das lutas emancipatórias das mulheres negras contemporâneas.

2. Fundamentação Teórica: O Matriarcado Negro e a Pedagogia do Terreiro

A atuação das lideranças femininas de matriz africana no Brasil dialoga diretamente com os conceitos de ancestralidade, decolonialidade e patrimônio vivo. Conforme destacam os estudos sobre as corporatividades afro-diaspóricas (SIMAS & RUFINO, 2018), o terreiro e os centros de tradição funcionam como polos de resistência cultural e social diante do apagamento histórico promovido pela colonialidade.

"O saber da matriarca não se restringe ao espaço ritualístico; ele constitui uma tecnologia social de preservação da vida, onde a reza, o uso das ervas e o acolhimento funcionam como ferramentas formais de saúde, cidadania e proteção comunitária."

A trajetória de Mãe Ieda insere-se nessa tradição de cuidado integral. Na condição de benzedeira e guardiã de costumes seculares, sua liderança demonstrou que a preservação da memória e a transmissão oral para os mais jovens são pilares indispensáveis para a construção da identidade e do pertencimento étnico-racial.

3. Desenvolvimento: A Tradição em Ato no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças

O Centro Espírita Nossa Senhora das Graças construiu uma história sólida de articulação comunitária e salvaguarda da cultura afro-mineira. Sob a regência de Mãe Ieda, a instituição consolidou sua atuação a partir de eixos fundamentais:

  • Práticas de Cura e Medicina Popular: O exercício do benzedor, o conhecimento das folhas e a escuta acolhedora como recursos de saúde física e espiritual para a população periférica.

  • Acolhimento Comunitário: A transformação do espaço tradicional em um centro de apoio social, garantindo a sustentação de famílias e a promoção da dignidade humana.

  • Salvaguarda das Expressões Tradicionais: O fortalecimento do Ponto de Cultura, incentivando manifestações como a capoeira, as danças tradicionais e a preservação dos ritmos sagrados como estratégias de formação cidadã.

                    MÃE IEDA (IN MEMORIAM)
        (Matriarca, Benzedeira e Guardiã das Tradições)
                             │
                             ▼
            CENTRO ESPÍRITA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS
            (Preservação do Patrimônio e da Memória)
                             │
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                     JULHO DAS PRETAS
       (Afirmação Política, Visibilidade e Continuidade)
                             │
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   Acolhimento Comunitário          Fortalecimento da Identidade
   e Justiça Social                 e da Cultura Afro-Mineira

No Julho das Pretas, a exaltação a Mãe Ieda reafirma a premissa de que a marcha e as conquistas do movimento negro atual só são possíveis porque matriarcas pavimentaram o caminho em momentos de adversidade. O reconhecimento de seu legado combate o apagamento histórico e reafirma a relevância das mulheres negras na formação cultural e social do país.

4. Considerações Finais

A preservação da memória de Mãe Ieda (In Memoriam) no âmbito do Julho das Pretas representa um ato de justiça histórica e de afirmação dos saberes ancestrais.

A vida e a obra de Mãe Ieda no Centro Espírita Nossa Senhora das Graças demonstram que a verdadeira liderança se consolida no compromisso diário com a comunidade, com a cultura popular e com a dignidade humana. Seu legado permanece vivo nas práticas de ensino, nas manifestações de rua, na capoeira e na continuidade das ações antirracistas, inspirando novas gerações a manterem acesa a chama da resistência e do bem-viver.

Referências Bibliográficas

  • BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007.

  • MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

  • SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018.

  • WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.

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