A Pedagogia das Danças Afro-Brasileiras, Ritmos Sagrados e Memória Centenária na UEMG Ibirité
Resumo: Este artigo analisa a experiência pedagógica e de extensão desenvolvida na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Unidade Ibirité, pautada nas sabedorias e práticas corporais do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças. A partir da salvaguarda de uma tradição secular de 128 anos, o estudo investiga a inserção das Danças Afro-Brasileiras e dos Toques Sagrados no ensino superior. Sob a regência da Mestra Mãe Regina, analisam-se as manifestações gestuais das danças dos Pretos Velhos e Caboclos. Sob a condução do Mestre Guiné, examina-se a relação entre a rítmica dos tambores e a estruturação dos arquétipos umbandistas. Conclui-se que a presença dos mestres tradicionais na universidade tenciona o cânone eurocêntrico, promovendo uma decolonização do saber por meio do corpo e do ritmo no campo da formação acadêmica e extensionista.
Palavras-chave: Danças Afro-Brasileiras. Umbanda. UEMG Ibirité. Pretos Velhos. Caboclos. Tambores Sagrados.
Decolonialidade.
1. Introdução
A inclusão dos saberes tradicionais de matriz africana e afro-indígena no espaço universitário consolida-se como um movimento urgente de decolonização do conhecimento e validação das epistemologias de terreiro. Historicamente, a universidade de matriz ocidental estabeleceu uma hierarquia que privilegiou a escrita e a racionalidade cartesiana, relegando a oralidade, a sabedoria ancestral e as expressões corporais a um lugar secundário na produção científica formal.
No contexto da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Unidade Ibirité, instituição com marcante atuação na formação de educadores e no desenvolvimento de projetos de extensão comunitária e cultural, o diálogo entre a tradição oral e a formação acadêmica encontrou um terreno férito na vivência proporcionada pelo Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — instituição centenária que acumula 128 anos de história, resistência e salvaguarda da memória comunitária e religiosa em Minas Gerais.
A transmissão desses saberes no ambiente acadêmico da UEMG Ibirité estruturou-se a partir de dois eixos prático-conceituais fundamentais:
Mestra Mãe Regina: Condução do ensino das Danças Afro-Brasileiras, voltando o olhar pedagógico para as expressões rituais e corporais das linhas dos Pretos Velhos e dos Caboclos.
Mestre Guiné: Abordagem da dimensão rítmico-sonora, trabalhando os tambores sagrados, suas cadências e a articulação dos arquétipos umbandistas no corpo em movimento.
Este artigo busca documentar e analisar criticamente essa experiência, refletindo sobre como a aliança entre a história centenária do terreiro, a dança e a musicalidade contribui para a formação de uma práxis pedagógica integrada, sensível e pautada no patrimônio cultural imaterial.
2. Fundamentação Teórica: O Terreiro como Matriz Epistêmica
A presença dos saberes tradicionais na UEMG Ibirité estabelece um diálogo direto com os conceitos de decolonização do saber (MIGNOLO, 2003; WALSH, 2009). Romper com o viés eurocêntrico da academia exige não apenas diversificar a bibliografia teórica, mas reconfigurar quem ensina e quais metodologias são reconhecidas como válidas na sala de aula universitária.
"O corpo no terreiro é o próprio documento e suporte de memória. Não há separação entre a razão que pensa e o corpo que dança; o conhecimento é corporificado e vivido na experiência do rito e do ritmo." > — (Reflexão inspirada em SIMAS & RUFINO, 2018)
Nesse panorama, o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, ao longo de seus 128 anos de existência, atua como um verdadeiro espaço epistêmico — um polo produtor de ciência popular, filosofia e preservação do patrimônio imaterial. A transposição desse acervo centenário para a sala de aula universitária desmistifica o terreiro como mero espaço de culto, posicionando-o como centro gerador de pedagogia, arte e cultura.
Ao vivenciar as danças e os toques sagrados na universidade, estudantes e pesquisadores da Unidade Ibirité experimentam o aprendizado por meio do saber corporificado (embodied knowledge), em que o movimento, a vibração sonora e a memória ancestral tornam-se ferramentas formais de investigação teórica, cênica e pedagógica.
3. Desenvolvimento e Eixos Pedagógicos das Aulas
O percurso formativo ministrado pelos Mestres na UEMG Ibirité articulou história, gestualidade e musicalidade em uma metodologia vivencial e reflexiva.
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│ CENTRO ESPÍRITA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS (128 A) │
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MESTRA MÃE REGINA MESTRE GUINÉ
(Danças Afro-Brasileiras) (Tambores e Arquétipos)
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Pretos Velhos Caboclos Rítmica dos Matrizes
(Ancianidade/ (Altivez/ Atabaques Arquétipicas
Enraizamento) Força) (Toques/Pulsão) (Expressão)
3.1. Eixo Mestra Mãe Regina: Danças Afro-Brasileiras e Gestualidade Sagrada
A condução pedagógica da Mestra Mãe Regina concentrou-se na pedagogia do movimento e no vocabulário gestual de duas linhas constitutivas da Umbanda:
A Linha dos Pretos Velhos
A dança caracteriza-se pela gravidade e pelo enraizamento. O corpo expressa a ancianidade por meio de movimentos curvados, pés firmes no chão e passos cadenciados, traduzindo valores como a paciência, a sustentação do tempo, a resiliência e o acolhimento.
Técnica Corporal: Exige flexão de joelhos, rebaixamento do centro de gravidade e economia de energia, construindo uma poética de cura, paciência e sabedoria ancestral.
A Linha dos Caboclos
Em contraposição, a gestualidade dos Caboclos evoca a altivez, a verticalidade e a territorialidade das matas. A movimentação é marcada pela expansão do tórax, braços abertos que simulam o empunhar do arco e da flecha, e pisadas firmes que demarcam o domínio do espaço.
Técnica Corporal: Desenvolve a presença cênica, a firmeza postural, a agilidade e a conexão com a energia vital da natureza e dos territórios.
3.2. Eixo Mestre Guiné: Tambores, Ritmos Sagrados e Arquétipos Umbandistas
Sob a regência do Mestre Guiné, as aulas abordaram a dimensão sônico-vibracional e a estrutura simbólica que rege as corporificações na Umbanda:
A Rítmica dos Tambores Sagrados: O atabaque e os instrumentos de percussão não funcionam apenas como acompanhamento musical, mas como condutores energéticos e organizadores do espaço-tempo pedagógico. As variações rítmicas (como os toques Nagô, Ijexá e Congo de Ouro) possuem métricas específicas que orientam a aceleração, a pausa e a cadência dos passos dos praticantes.
Os Arquétipos Umbandistas: O Mestre Guiné trabalhou a relação entre a vibração dos toques e a evocação dos arquétipos das entidades. O estudo dos arquétipos permite entender essas figuras não apenas em termos religiosos, mas como matrizes de psicologia, identidade e expressão corporal (força, doçura, sabedoria, justiça). A percussão atua como o estímulo auditivo e motor que desencadeia a transformação da postura e da dinâmica do corpo no espaço.
4. Considerações Finais
A integração dos saberes centenários do Centro Espírita Nossa Senhora das Graças, sob a condução da Mestra Mãe Regina e do Mestre Guiné no âmbito da UEMG - Unidade Ibirité, representa um marco para a construção de uma pedagogia universitária verdadeiramente plural, inclusiva e decolonial.
Ao reunir a história viva de 128 anos de tradição, a riqueza gestual das danças de Pretos Velhos e Caboclos e a precisão rítmico-arquétipica dos tambores, a experiência demonstra que a ciência acadêmica se fortalece quando reconhece a legitimidade das tecnologias ancestrais de transmissão oral e corporal. Este trabalho reitera a necessidade contínua de abrir as portas do campus Ibirité para as comunidades de terreiro, garantindo a salvaguarda e a difusão do patrimônio cultural afro-brasileiro no ensino superior.
Referências Bibliográficas
BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena viva. Salvador: Editora UFBA, 2007.
MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mork, 2018.
WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y pedagogía decolonial: apuestas desde el in-surgir, re-existir y re-vivir. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.
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