Do Tambor ao Ritual: Mestre Guine pesquisa o Tambor de Mina e o Tambor de Crioula no Maranhao
No Centro Espírita Nossa Senhora das Graças — a nossa Casa do Pai Mateus —, a memória, a fé e o respeito aos saberes de matriz africana são as vigas mestras que sustentam a nossa caminhada secular. Fundado em 1898 e ancorado no Bairro Santo André, nosso espaço sempre foi um ponto de resistência, acolhimento e preservação dos ritos que nos conectam aos ancestrais.
Para nós, a Capoeira e as manifestações de terreiro compartilham o mesmo cordão umbilical. Por isso, a pesquisa realizada pelo nosso líder e mestre, Mestre Guiné, no Maranhão ao longo de 2024, não foi apenas uma viagem de estudos: foi um reencontro com a nossa própria essência e com os fundamentos das Casas de Axé e de Tambor que mantêm viva a chama da nossa ancestralidade.
1. O Tambor de Crioula e a Força do Nosso Batuque
Onde há tambor, há presença ancestral. Na vivência do Tambor de Crioula em São Luís, Mestre Guiné testemunhou o mesmo fundamento que rege o nosso terreiro: a circularidade, a reverência e a força do toque.
A Roda como Espaço Sagrado: Assim como na nossa casa e na roda de Capoeira, o Tambor de Crioula não é mera apresentação, mas um ritual de comunhão. A pungada (umbigada) e o diálogo corporal entre a dançadeira e o couro do tambor traduzem a mesma energia de troca que sentimos nos nossos trabalhos e no jogo de Capoeira.
A Afinação Rítmica e o Axé: O som dos tambores no Maranhão conversa diretamente com o ritmo que movimenta os nossos corpos e atabaques em Belo Horizonte. É o ritmo que chama, sustenta e conduz.
2. Casa das Minas: O Diálogo com as Matriarcas e a Memória Jeje
A visita à Casa das Minas (Querebentantan de Zomadonu) fortalece uma das nossas maiores convicções: o respeito absoluto à liderança feminina e aos mais velhos. Nossa história em Belo Horizonte é profundamente marcada pela força e pela sabedoria de matriarcas como a inesquecível Mestra Mãe Ieda, e encontrar na Casa das Minas a preservação intacta da tradição Jeje reforçou o compromisso da nossa instituição com a memória viva na Casa das Minas houve um dialogo muito positivo sobre as trocas culturais que envolvem as 2 Casas e tambem um dfialogo importante
O Encontro no Terreiro e a Escuta do Sagrado
Durante a imersão na Casa das Minas, o diálogo do Mestre Guiné com as guardiãs da casa não ocorreu no formato de uma entrevista formal ou acadêmica, mas através da pedagogia da escuta e do terreiro. Em conversas com as vodunsis e zeladoras, o Mestre trocou vivências sobre como a preservação do culto aos Voduns (especialmente a família de Badé, Zomadonu e Averequete) se manteve firme por séculos mesmo diante de todas as pressões externas.
Nesse diálogo, destacaram-se pontos centrais para a nossa prática em Minas Gerais:
A Oralidade Absoluta: Na Casa das Minas, o fundamento não é escrito em livros; ele vive no corpo, na cantiga e na memória dos mais velhos. O diálogo com as matriarcas reafirmou que o verdadeiro aprendizado da Capoeira e do Candomblé exige vivência, tempo e presença.
O Silêncio e a Disciplina como Fundamento: As guardiãs enfatizaram a importância do silêncio reverente. Para a nossa comunidade no Bairro Santo André, essa lição se traduz no respeito à hierarquia do terreiro e na compreensão de que nem tudo no jogo ou no rito é para ser exibido — o segredo e o axé caminham juntos.
A Força da Matriarca: Ver a liderança feminina conduzir a resistência secular daquele espaço renova a nossa responsabilidade em honrar o legado das nossas próprias mães e mestras, mantendo o Centro Espírita Nossa Senhora das Graças como uma fortaleza da fé afromineira.
3. Casa Fanti Ashanti: A Ciência dos Toques de Tambor e a Diversidade de Ritos
A imersão na Casa Fanti Ashanti, fundação e legado de Pai Euclides (Talabyan), nos ensina sobre a convivência harmônica e rigorosa entre diferentes nações e ritos. Para o nosso Centro, que acolhe a Capoeira, a assistência comunitária e as práticas de terreiro, essa riqueza rítmica é um espelho fundamental.
A Polirritmia e os Sotaques do Tambor
O foco principal da pesquisa do Mestre Guiné na Fanti Ashanti esteve no estudo detalhado da bateria e dos toques de tambor, onde a casa demonstra uma maestria única ao cruzar o Tambor de Mina, o Candomblé Ketu/Nagô e os ritos Ashanti.
O Toque do Tambor de Mina (Mina-Jeje e Mina-Nagô): Ao contrário das baterias de Candomblé do sudeste que utilizam prioritariamente os aguidavis (varinhas), na tradição de Mina estudada na Fanti Ashanti, o toque das mãos diretas no couro dos tambores produz uma vibração grave, profunda e prolongada. Mestre Guiné mapeou como essa conversação entre o Ió (tambor grave) e os tambores menores conduz o transe e a movimentação dos corpos no salão.
Sincronia entre Cadência e Movimento Corporal: A pesquisa observou como cada toque possui uma "chamada" própria que altera instantaneamente a resposta corporal dos praticantes. Esse dinamismo rítmico dialoga diretamente com a bateria da Capoeira: assim como o berimbau gunga comanda o jogo e altera a cadência dos capoeiristas (do jogo baixo de Angola à expansão da Regional), os toques da Fanti Ashanti determinam o ritmo da energia e da movimentação do rito.
O Atabaque como Arquivo de Memória: Para Pai Euclides e os herdeiros da Fanti Ashanti, o toque do tambor não é mero acompanhamento musical, mas uma linguagem litúrgica complexa. Aprender o toque correto é aprender a história, a geografia e a ciência de um povo.
A Nossa Missão: Manter o Elo Vivo
O Centro Espírita Nossa Senhora das Graças entende que a Capoeira, o Tambor de Crioula e as Casas de Mina e Candomblé são galhos da mesma árvore ancestral. A pesquisa de 2024 do Mestre Guiné reafirma o nosso papel como Ponto de Cultura e terreiro centenário: o de cruzar caminhos, honrar quem veio antes e levar essa sabedoria para as futuras gerações no Bairro Santo André e em toda Belo Horizonte.
A bênção dos nossos mais velhos e a força dos nossos tambores continuam a guiar cada passo da nossa caminhada.
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